Presas cursam ensino superior à distância em universidade particular de SP

A população carcerária do estado de São Paulo ultrapassa a marca dos 233 mil. São pessoas privadas de liberdade, cumprindo penas por crimes ou aguardando julgamento, sem muita perspectiva de futuro. Na contramão dessa realidade, 15 mulheres presas no regime semiaberto fazem parte da primeira turma de um curso superior tecnólogo em uma universidade particular, a Mackenzie, na modalidade EAD (ensino à distância).

O curso de Marketing, Gestão Comercial e Gestão em Recursos Humanos faz parte um projeto piloto, aplicado pela primeira vez no sistema penitenciário do estado de São Paulo.

Na prática, a única diferença do curso feito pelos alunos da universidade é que as detentas não têm acesso à internet durante a semana. A metodologia, o conteúdo e o certificado são os mesmos.

De segunda a quinta, as presas estudam das 8h às 12h, no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) Butantã, onde assistem videoaulas, leem textos e fazem exercícios. Às sextas, vão presencialmente no Mackenzie, em Higienópolis, para tirar dúvidas com professores e postar as questões de exercícios.

“Eu pensei que era o fim. Na realidade foi o começo. Eu vim do lixo pro luxo. Olha que... ponte eu atravessei, né!?”, conta Shirley Marconi, de 52 anos, que passou parte da sua vida na cracolândia até ser presa.

Antes de pisar no prédio da universidade como aluna, já vendeu balas a estudantes na rua da instituição.

Essa não é a primeira vez que Shirley é presa. Na passagem anterior, não teve a mesma oportunidade. Ao ser libertada, o horizonte não era positivo. “Da outra vez abriram os portões e... Se vira! O próprio estado fecha a porta pra você, porque ele não permite que você preste um concurso”, reforça.

Por lei, pessoas com antecedentes criminais não podem ser candidatos a concursos públicos. Além disso, a falta acesso à educação é uma barreira que vai além dos muros físicos da penitenciária.

Preconceito e mudança de vida

“Acham que a gente não pode sair desse lugar e querer uma mudança de vida”, diz a aluna Bárbara Dantas Machado, de 22 anos, que vê no curso a oportunidade de superar o preconceito.

A barreira que é vista é o preconceito. Para Shirley, “uma vez que você esteve desse lado do muro, você já não é bem visto do outro lado do muro.”

Todas as detentas que participam do curso estão no regime semiaberto, isto é, quando a liberdade é condicionada em momentos específicos, como trabalho e estudos.

“Essa caneta, essa caneta se tornou uma varinha mágica, né, que ‘tá’ mudando tanto o psicológico como o caminho, a direção pra todas que participam desse projeto”, diz Shirley Marconi.

Os anseios de quem faz uma faculdade na penitenciária vão além da capacitação. Elisabete Almeida sonha em ser psicóloga, mas seu diploma significa muito mais. “Principalmente pra dar orgulho, principalmente, pra pessoa mais importante da minha vida, que é a minha mãe. Sem ela, acho que não conseguiria”, lembra a estudante.

O foco dos estudos é para que, no futuro, essas mulheres conquistem sua independência financeira e profissional. “Tem o foco das mulheres empreendedoras, tem o foco daquelas que querem mudar de vida”, completa Ana Lúcia Vasconcelos, coordenadora geral do curso.

Reeducação no ensino superior

Nos últimos cinco anos se formaram 10.277 presos no ensino médio e 13 no ensino superior no estado de São Paulo. Até junho deste ano 34 mil presos estavam envolvidos em algum tipo de atividade educacional.

Para que um preso ingresse em uma universidade, ele deve ter realizado o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e participar de processos seletivos em instituições públicas e, atualmente, privadas. É necessário também uma autorização judicial para esses estudos, sempre na modalidade EAD.

A Secretaria de Administração Penitenciária espera, com esse projeto, um exemplo para futuras iniciativas de educação dentro dos presídios, levando a proposta para novas universidades públicas e privadas.


Fonte: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/09/20/presas-fazem-curso-tecnologico-a-distancia-em-universidade-particular-de-sao-paulo.ghtml


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