Viu como se monta uma empresa com crowdfunding?

09/05/2014 - A trajetória de quatro pequenos e médios negócios que vieram ao mundo ao arrecadar recursos em sites de financiamento coletivo, como Kickstarter e Indiegogo Nova York - Toda vez que o Facebook faz uma aquisição, o mundo dos negócios para o que está fazendo e olha com atenção. Foi assim com a compra do aplicativo de troca de mensagens WhatsApp, em fevereiro, e também no mês seguinte, quando a Oculus Rift, empresa que desenvolve um sistema de realidade virtual, teve sua aquisição anunciada. No caso do WhatsApp, a reação geral foi de surpresa com os 19 bilhões de dólares que o Facebook concordou em pagar pela companhia. A Oculus Rift, apesar de avaliada em 2 bilhões de dólares, levantou outra questão: o que uma rede social faria com uma tecnologia criada para videogames? O que recebeu menos destaque, mas é ainda mais relevante para empreendedores do mundo todo, é parte essencial da história da Oculus Rift — a empresa saiu do chão graças às contribuições financeiras de 10 000 pessoas que adoraram a ideia de jogar videogame com o máximo possível de realismo. Os fãs da Oculus Rift fizeram doações que somaram 2,5 milhões de dólares. A vaquinha aconteceu pelo Kickstarter, site pioneiro de crowdfunding, ou financiamento coletivo, fundado pelos amigos Charles Adler, Perry Chen e Yancey Strickler. Ninguém sabe muito bem o que o Facebook vai fazer com um sistema de realidade virtual, mas uma conclusão pode ser tirada da aquisição: o crowdfunding já é uma opção real para empreendedores que querem transformar uma boa ideia em uma empresa com grande potencial para crescer. Em menos de cinco anos, quase 60 000 projetos já foram financiados via Kickstarter, serviço que popularizou a ideia do financiamento coletivo pela internet. No total, esses projetos levantaram 1 bilhão de dólares de quase 6 milhões de contribuintes. Esse número inclui um pouco de tudo: cineastas com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão — mas pouco dinheiro na conta bancária—, músicos que sonham em lançar o primeiro disco, fotógrafos que querem montar a primeira exposição, e assim por diante. Mas, cada vez mais, há aqueles com uma ambição um pouco diferente, como Caroline Mak e seu marido, Antonio Ramos, da Brooklyn Soda Works, de Nova York. Caroline é artista plástica; Ramos, químico. Ambos estavam empregados, e o que os levou ao Kickstarter quatro anos atrás foi uma espécie de hobby que tinham no tempo livre — fazer refrigerantes naturais. “Quando lançamos nossa primeira campanha, trabalhávamos nos refrigerantes só à noite ou nos fins de semana”, diz Caroline. “Queríamos justamente descobrir se haveria interesse pelo que estávamos fazendo.” A primeira campanha tinha o objetivo de arrecadar 2 000 dólares e acabou rendendo o dobro disso (em sites como o Kickstarter, os donos da ideia só recebem o dinheiro se o objetivo for alcançado, mas há muitos casos em que o montante inicial é superado). Com o dinheiro, Caroline e Ramos compraram máquinas para extrair suco de frutas e barris para armazenar a produção. Os refrigerantes, com sabores como maçã e gengibre e pepino, limão e sal, começaram a ser vendidos em feiras do Brooklyn. O sucesso foi grande, e uma segunda campanha foi lançada para vender os refrigerantes engarrafados, o que deverá começar em meados deste ano. Apesar de a arrecadação também ter sido modesta, cerca de 9 000 dólares, a ideia era fazer marketing e comunicar-se com o público. “Temos clientes fiéis, mas basicamente aqui na região”, diz Caroline. “O ­Kickstarter nos deu a oportunidade de mostrar que, com o engarrafamento, queremos crescer além de Nova York.” A empresa fatura menos de 2 milhões de dólares por ano e seu objetivo é começar a distribuição no varejo local para depois buscar outros mercados. Nem todas as campanhas começam com metas de arrecadação tão modestas como a da Brooklyn Soda Works — e o tamanho da resposta pode surpreender até mesmo o mais otimista dos empreendedores. Adam Sanger é o presidente da Canary, empresa responsável pelo segundo maior financiamento já obtido por intermédio do site Indiegogo, do empreendedor Slava Rubin. A Canary desenvolveu um sistema de segurança doméstico elegante e muito mais barato e simples de instalar do que as soluções existentes até hoje (basta comprar um aparelho que custa 200 dólares e é controlado por smartphone ou tablet). A meta estabelecida por Sanger era 100 000 dólares, valor atingido em menos de 24 horas. Quando o período de contribuições chegou ao fim, pouco mais de um mês depois, a Canary havia arrecadado quase 2 milhões de dólares. “Sabíamos que o produto tinha potencial de mercado, mas o sucesso de nossa campanha no Indiegogo foi muito além do que poderíamos imaginar”, diz Sanger. Ele afirma que a comunicação é fundamental numa campanha desse tipo. “Não apresentamos um produto cheio de funcionalidades, e sim a solução de um problema real, que é o monitoramento de segurança.” Mostrar o produto ou serviço do ponto de vista do cliente faz toda a diferença na hora de passar a ideia adiante pelas redes sociais. O sucesso fenomenal no Indiegogo também ajudou a Canary a conseguir investidores institucionais. A empresa levantou outros 11,2 milhões de dólares de fundos de capital de risco, entre eles o Khosla Ventures, de Vinod Khosla, um dos investidores mais renomados do Vale do Silício. Os primeiros produtos serão entregues a partir de maio. Muitos empreendedores que fizeram campanhas bem-sucedidas em sites de crowdfunding dizem que eles servem para muito mais do que apenas levantar dinheiro. Considere o caso da Light Harmonic, de equipamentos para audiófilos, os consumidores que pagam pequenas fortunas para obter a reprodução mais fiel possível de seus discos. A marca, já conhecida no mundo da audiofilia, usou o Indiegogo para testar uma hipótese: será que o consumidor comum também não se interessaria por um produto que melhorasse sensivelmente a experiência de ouvir música no computador, mas que não fosse tão caro assim? A empresa criou o Geek, acessório pouco maior que um pen drive, que custa 199 dólares. O objetivo era conseguir 28 000 dólares, e a campanha acabou arre­cadando mais de dez vezes essa quantia. “O dinheiro ajudou, é claro, mas conseguimos algo infinitamente mais importante”, diz Gavin Fish, vice-presidente de vendas e mar­keting da Light Harmonic. “Comprovamos que existe um mercado de consumidores dispostos a ouvir música com mais qualidade por um preço razoável.” A Light Harmonic já lançou mais dois novos produtos na mesma linha, sempre usando as plataformas de financiamento coletivo. (E a empresa parece ter desbravado um caminho para quem está interessado em áudio de alta fidelidade: a startup Pono, do roqueiro Neil Young, obteve mais de 6 milhões de dólares em contribuições para seu player portátil de alta resolução — o objetivo era conseguir 800 000 dólares.) Campanhas de crowdfunding exigem dedicação para dar certo. “Não se trata de criar uma página e esperar o dinheiro”, diz Sanger, da Canary. “Na campanha inteira estivemos 100% concentrados em ouvir as pessoas.” Só na primeira semana foram mais de 3 000 ­e-mails. Como essas vaquinhas pela internet são recentes, muita gente pensa que basta pagar para receber o produto. Na verdade, é como qualquer negócio — podem acontecer atrasos nos planos ou tudo pode dar errado. Por isso, o envolvimento com os consumidores continua após as contribuições. Um levantamento feito por Ethan Mollick, da escola de administração Wharton, apontou que três em cada quatro projetos são entregues com atraso. “O Kickstarter não é uma loja. Nós ainda tínhamos de começar a produção”, diz Casey Hopkins, fundador da Elevation Lab. A empresa produz acessórios para iPhone, e seu primeiro produto, o Elevation Dock, foi entregue com dois meses de atraso. O resultado nem é tão ruim quando comparado com a máquina de café expresso doméstica ZPM Nocturn. O projeto foi concluí­do com sucesso no Kickstarter em janeiro de 2012 (370 000 dólares levantados), e até hoje não há previsão para o começo das entregas. Os autores seguem usando a página do Kickstarter para informar os mais de 1 500 contribuintes sobre o andamento das coisas. A sinceridade, se não resolve o atraso, pelo menos é comovente: “(Este novo problema na produção) é incrivelmente frustrante, desmoralizador e dá vontade de arrancar os cabelos, especialmente ao passarmos da marca de dois anos (de atraso)”. A ideia de contar com a ajuda alheia para empreender é bastante atraente — mas com ela vem uma série de novos desafios. Sérgio Teixeira Jr., da PME
Fonte: EXAME.com


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