Federal bilíngue comemora 1ª turma

05/05/2014 - Com alunos falando português e espanhol na sala de aula e foco na América Latina, Unila ainda aguarda construção de sede própria Com mais da metade dos alunos de dez países diferentes, a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) comemora no meio deste ano a formação de sua primeira turma, mesmo tendo pela frente grandes desafios pedagógicos e de infraestrutura. Única instituição pública de ensino superior oficialmente bilíngue, a Unila aguarda a construção da sua sede própria, a consolidação do corpo docente internacional e a estruturação da pós-graduação, mas já começa a colher frutos de seu projeto de integração regional. A Unila é uma das 63 universidades da rede federal brasileira, mas a única com características tão singulares. As línguas oficiais são o português e o espanhol, ambas faladas em sala de aula e usadas nas avaliações, e o estudo da temática latino-americana está no currículo básico de todos os cursos. Além disso, o projeto tem como meta ter metade dos alunos e professores de países latino-americanos. Localizada em Foz do Iguaçu, Paraná, na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, a Unila tem conseguido alcançar esse objetivo entre os estudantes. Dos 1.600 matriculados nas 16 graduações hoje oferecidas, 57% são de países como Paraguai, Argentina, Chile e Peru. Os alunos são escolhidos por processos seletivos realizados pelos países vizinhos, após acordo com a universidade. Já entre os professores, a proporção é menor, com 20% de estrangeiros. Apesar da dificuldade de atrair número suficiente de professores de outros países, ainda assim a realidade na Unila é muito superior do que a média de mobilidade internacional das universidades do País. Desde 2010, quando a Unila iniciou as atividades, as aulas ocorrem de modo improvisado em salas oferecidas dentro do Parque Tecnológico da Itaipu Binacional. Ao andar pelos corredores, bibliotecas e até nas salas de aulas, parece em alguns momentos que você não está no Brasil. Seja pelos traços andinos ou guarani no rosto dos alunos, pelos avisos em espanhol afixados nas paredes ou pelos sotaques ouvidos nas conversas. “O bom é que com o portunhol você pode se comunicar”, brinca o paraguaio Derlis Troche, de 25 anos, que estuda Letras. Troche também participa de um programa de extensão em que dá aula de guarani, língua falada por indígenas brasileiros e por boa parte da população paraguaia. “Quando cheguei aqui, achei que a experiência seria importante para eu falar português, conhecer o Brasil, mas com o contato dos alunos eu passei a conhecer mais da minha própria cultura, do meu país”, conta ele. “É um espaço para conhecer a cultura do outro e a própria, a partir da curiosidade dos colegas.” Todo mundo que entra na Unila passa por um ciclo básico, com disciplinas de metodologia, América Latina e o bilinguismo. Quem é brasileiro faz espanhol e os alunos dos países vizinhos aprendem o português. A temática latino-americano é abordada em várias disciplinas, de acordo com o curso dos alunos. A aluna de Ciência Política e Sociologia Besna Yacovenco, de 26 anos – que se classifica cidadã do Rio da Prata, do lado uruguaio – vê no ciclo comum e na diversidade dos alunos o ponto mais rico da universidade. “A gente deixava para pensar a América Latina no doutorado e aqui a gente constrói no dia a dia esse pensamento, revisando toda teoria e percebendo o que serve para a gente”, diz ela. “Vemos que os problemas de todos os países são muito comuns.” O pró-reitor de graduação da Unila, Marcos Xavier, explica que o ciclo comum veio no bojo do projeto de concepção da chamada integração sul-sul. “O projeto vai para o caminho de uma produção compartilhada, o aluno tem de se situar na realidade em que está presente. Mas também seguimos as diretrizes nacionais dos cursos”, diz ele. “Temos tido sucesso na integração e no convívio, a gente vê na sala de aula um caldo cultural muito rico”, diz ele. Nascido no Pará, o estudante de Relações Internacionais e Integração Luiz Pimenta Frota, de 23 anos, diz que essas características já contribuem fora da sala. "Já estamos em uma tríplice fronteira, e eu moro com 5 pessoas, entre brasileiros, de vários estados, chilenos e equatorianos", diz ele. "Na última vez que viajei pra casa levei o tererê (bebida paraguaia), que estou viciado", brinca. Permanência. Manter alunos de vários países e cidades em Foz é mais um desafio grande da universidade. A Unila não tem dados sobre evasão, mas informou que no ano passado 153 alunos trancaram a matrícula. Formam-se este ano 183 alunos de nove cursos, sendo 29 deles - matriculados em três carreiras - no fim deste primeiro semestre. A Unila tem 95 vagas na moradia estudantil, em um prédio comprado pela universidade, além de oferecer 740 bolsas para moradia. Segundo o pró-reitor, a saída de alunos tem sido por motivos financeiros, não por causa do projeto. Para 2014, o orçamento para assistência estudantil, que também soma alimentação e transporte, cresceu 10% e deve chegar a R$ 7,5 milhões. "Temos conseguido atrair um estudante que cada vez mais conhece nosso projeto, consciente do que vai encontrar." Outro entrave para a permanência dos estudantes tem sido o atraso das obras da universidade. Um processo comum ao vivido na maioria dos câmpus surgidos na expansão da rede federal com o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2007. Projetado por Oscar Niemeyer, a sede da Unila vai ocupar uma área de 45,7 hectares, vizinha a Itaipu. As obras da primeira etapa, ao custo de cerca de R$ 260 milhões, começaram no segundo semestre de 2011 e a previsão era que ficasse pronto em um ano. Até agora, pouco mais de 30% foi finalizado. Segundo o reitor, Josué Modesto Subrinho, os prédios não devem ficar prontos em menos de três anos. "A obra está claramente atrasada, teve histórico de problemas, quando percebemos uma falha geológica que não estava prevista. Isso desencadeou um contencioso com o consórcio que faz a construção", disse. "Claro que é constrangedor ainda não ter tudo pronto, mas a cidade tem ótimas condições para abrigar o projeto, como o parque tecnológico de Itaipu e as outras instituições de ensino que são parceiras." Outras duas universidades localizadas na cidade compartilham espaço com a Unila em determinados cursos. Na área de pesquisa, a Unila tem hoje apenas dois mestrados, ambos focados em América Latina, situação considerada ainda longe do ideal pelo reitor Subrinho. "Não é o que se esperava, a pesquisa tem uma condição fundamental: cérebro e infraestrutura. Tínhamos até recentemente 122 professores efetivos. Isso não chega a criar uma massa critica para se estruturar uma pesquisa, apesar de termos conseguido já ter a aprovação de dois programa." O projeto inicial da Unila prevê 560 professores, com 40 cursos e 10 mil alunos. "Temos de consolidar pós e pesquisa, mas sabemos que essa universidade é um projeto de longo prazo", diz o pró-reitor Marcos Xavier. Paulo Saldaña
Fonte: O Estado de S. Paulo


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