Inteligência Artificial e o Mercado de Trabalho

André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho é Vice-Diretor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo, ICMC-USP. Coordena o Núcleo de Apoio a Pesquisa em Aprendizado de Máquina em Análise de Dados da USP. É membro do Comitê Consultivo para a América Latina da International Network for Government Science Advice (INGSA), do Conselho Técnico Científico da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (EMAp-FGV), do Data Science and Engineering Consortium e do Comitê de estratégias e parcerias do UKRI Centre for Doctoral Training in Accountable, Responsible and Transparent AI (ART-AI), da University of Bath, no Reino Unido. É um dos autores do livro Inteligência Artificial: Uma abordagem de aprendizado de máquina, Prêmio Jabuti 2012.

Uma das principais preocupações que surgem com a presença crescente da Inteligência Artificial (IA) em nossas vidas é como isso afetará o mercado de trabalho, o nosso emprego, tanto agora, como em um futuro não tão distante. É uma preocupação natural, principalmente por conta das várias teorias catastróficas que prevêem nossa substituição por máquinas. Apesar disso, eu acredito que, no mundo, ao invés de piorar, a IA vai melhorar, não só a oferta, mas também as condições de trabalho. O problema é que essa melhora vai variar de país para país.

Não é de hoje que a criação de novas tecnológias gera preocupações a respeito do mercado de trabalho. Está preocupação surgiu, por exemplo, durante a revolução industrial, quando as máquinas começara a automatizar o trabalho manual ou braçal. Ou seja, a evolução industrial automatizou trabalho manual. Mas como isso afetou os empregos?

Quando as máquinas de tecelagem começaram a ser usadas nos Estados Unidos em substituição aos tecelões no início do século XIX, a quantidade de tecidos produzidos por hora aumentou em 50 vezes. Como as máquinas podiam trabalhar sem descanso, o número de operários necessários para produzir uma mesma quantidade de tecidos foi reduzido em mais de 90%. Com a maior produção, com menos funcionários, houve uma grande redução no custo dos tecidos, o que fez com que mais pessoas pudessem comprá-los. Além disso, com o aquecimento da economia, no longo prazo, o número de empregos criados foi quatro vezes maior que a quantidade de empregos eliminados.

A preocupação quanto à redução de postos de trabalho tambem ocorreu quando surgiram os automóveis, no final do século XIX, que desempregaram várias pessoas que trabalhavam com o transporte a cavalo. No entanto, um número bem maior de novos postos de trabalho foram criados, não apenas na indústria automobilistica, mas abertura de oficinas, com a construção de estradas e com a redução da duração e do custo das viagens que antes eram feitas usando cavalos.

É verdade que, no início, a revolução industrial piorou as condições de trabalho. Antes da revolução industrial, os trabalhos eram sazonais e ocorriam enquanto havia luz natural. Com a revolução industrial, as pessoas, até mesmo crianças, trabalhavam cerca de 15 horas diárias, seis dias por semanas, muitas vezes em tarefas tediosas e repetitivas. Apenas no início do século XIX, o horário de trabalho de crianças nas fábricas, incluindo aí a indústra textil, foi limitado a 12 horas diárias. Apenas nos anos 1930, o número de horas de trabalho passou para 48 horas semanais, reduzido depois para 40 horas ou menos. Um dos maiores economistas da história, John Keynes, em seu artigo “Economic Possibilities for Our Grandchildren” previa que no século seguinte a economia seria tão produtiva que as pessoas trabalhariam apenas 15 horas por semana. Keynes inclusive se perguntava como nos manteremos ocupados trabalhando apenas neste período.

As revoluções que afetam o mercado de trabalho estão ocorrendo em intervalos de tempo cada vez menores. A nova revolução, que está automatizando a automação por meio da IA e da Ciência de Dados, já está eliminando ou transformando empregos.

Estudos recentes do Banco Mundial apontam que, nas economias mais avançadas, está ocorrendo uma migração de postos de trabalho do setor industrial para o setor de serviços, em particular nas áreas de comunicação, transportes e economia criativa. Uma das exceções é a China, onde a contribuição da indústria na economia se mantém. Nos países de renda média para baixa, número de postos de trabalho na indústria e na economia informal tem se mantido estáveis.

Uma pesquisa feita em conjunto pela Universidade de Oxford e a Nomura Research, do Japão, prevê que, que até 2013, metade dos japoneses perderão seu emprego por causa dos progressos obtidos na Inteligência Artificial e na Robótica. Esse mesmo estudo calculou a chance de cada um dentre 601 tipos de trabalhos desaparecerem pelo uso de aprendizado de máquina. É importante observar que tal estudo usou dados simplificados sobre cada ocupação.

Existe um consenso que, dentre os novos empregos, a maioria deles, e principalmente os mais bem pagos, exigirão um elevado nível educacional. Isso vai favorecer os países mais desenvolvidos, que possuem um sistema educacional de melhor qualidade. Infelizmente, isso não é uma boa notícia para o Brasil. Vamos pegar um exemplo: De acordo com dados da OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), mais de 95% da população adulta japonesa tem o ensino médio completo, e mais da metade completou o nível superior. No Brasil 50% da população adulta possui ensino médio completo e 17% tem nível superior.

Para os novos empregos que estão surgindo, são necessárias capacidades cognitivas crescentes, que incluem capacidade de resolver problemas cada vez mais complexos, de pensar de forma crítica, de se adaptar rapidamente à mudanças, de se relacionar bem com os colegas no ambiente de trabalho e de trabalhar bem em equipe. Ocupações que possuem tarefas rotineiras estão sendo automatizadas pela IA.

Ademais, as pessoas vão enfrentar um ambiente de trabalho cada vez mais dinâmico. O departamento de trabalho dos Estados Unidos já previa, em 2010, os estudantes que estavam concluindo seus estudos teriam de 10 a 14 empregos até os 38 anos de idade,e que 1 a 4 pessoas estavam no emprego atual a menos de 1 ano e 1 em 2 a menos de 5 anos. Estima-se que 65% das crianças que estão hoje na escola primária trabalharão em profissões que ainda nem existem. Uma das profissões que mais contrata hoje, e com um dos melhores salários, Cientista de Dados, não existia 15 anos atrás.

Ao mesmo tempo, plataformas digitais de trabalho, muitas delas baseadas em IA, derrubam as fronteiras entre países, permitindo que pessoas de diferentes países ofereçam seus serviços. Até em um mesmo país, plataformas para um setor de serviço específico, como advocacia, permitem que pessoas trabalhem remotamente, sem um vínculo empregatício. As plataformas permitem ainda que uma empresa, contratando pessoas de países com fusos horários diferentes, funcionem 24 horas por dia.

No próximo texto vou falar do mesmo tema, mas em uma direção oposta. Como a IA está ajudando as empresas a encontrar os melhores funcionários e as pessoas a encontrarem os melhores empregos.


Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com/ciencia-matematica/post/inteligencia-artificial-e-o-mercado-de-trabalho.html


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