Área de sustentabilidade oferece oportunidades para profissionais

05/05/2014 - Há cerca de 10 anos, Roberto Siggers, de 54 anos, gere projetos de sustentabilidade na Cielo, uma das maiores credenciadoras multibandeira de cartões de crédito do Brasil. A configuração do setor pelo qual é responsável, contudo, nem sempre foi a mesma. Inicialmente, conta Siggers, o departamento tinha o objetivo apenas de cuidar dos projetos na área de responsabilidade social da empresa. Só depois incorporou governança da sustentabilidade como uma das suas atribuições. Hoje, a companhia possui até um Comitê de Sustentabilidade. Na prática, Siggers conta que o trabalho do seu setor é usar indicadores de referência para, primeiro, medir o quão sustentável está a empresa e, em seguida, traçar planos para melhoria do seu perfil socioambiental. “A Cielo buscou entrar no ISE da Bovespa, índice que traz uma lista de necessidades que a empresa tem de cumprir para ter uma boa gestão sustentável.” Outro trabalho da gerência de sustentabilidade, acrescenta ele, é cuidar dos investimentos socais da empresa. Assim como a Cielo, nos últimos anos, muitas empresas estão, em menor ou maior grau, adotando o conceito ampliado de sustentabilidade, que vai além da questão ambiental, buscando adotar gestões sustentáveis, o que requer profissionais preparados para esse fim. Diante desse cenário, consultores e especialistas afirmam que o mercado de trabalho para quem quer atuar na utilização e disseminação de práticas sustentáveis nas organizações tem potencial de crescimento. Mas alertam: é preciso investir em qualificação. A exigência é principalmente por pessoas capazes de gerir projetos e ações de sustentabilidade de forma integrada, e não mais apenas em áreas específicas ligadas a questões ambientais. Para algumas delas, a necessidade é mais evidente, como as das áreas da construção civil, mineração, engenharia e petrolífera. O presidente da Associação Brasileira dos Profissionais em Sustentabilidade (Abraps), Alexandre Mac Dowell, contudo, afirma que empresas de bens de consumo e de serviços também estão recrutando pessoas para trabalhar na área. “A necessidade hoje é de alguém que atue na linha da sustentabilidade relacionada a diversos fatores, não só ao ambiental, mas também à questão trabalhista e diversidade de gênero, porque tudo isso também envolve sustentabilidade”, esclarece. Perfil. Esses profissionais ocuparão cargos que vão desde trainees até CEOs em sustentabilidade. Sobre o perfil exigido, analistas dizem que o candidato deve ter facilidade de relacionamento, boa capacidade de argumentação, visão estratégica e analítica, conhecimento sobre novas tendências e discussões relacionados ao assunto, além do domínio das ferramentas e indicadores da área. “Precisam ajudar a empresa a incorporar a sustentabilidade a todas as áreas de negócio”, diz Mac Dowell, que também é CEO da Conethics, empresa voltada à inteligência em sustentabilidade. Especialista em life coaching, Rosane Lima acrescenta que o profissional também tem de ter uma visão holística (ampla) de gestão e, principalmente, perfil de liderança. “É muito mais do que alguém especializado em meio ambiente, segurança ou saúde. É um profissional que deve ter a linguagem de negócios na cartilha dele. Tem de ser alguém que entenda o quanto essa matéria pode agregar valor à organização”, afirma. Isso se dá, segundo ela, porque o princípio da sustentabilidade não pode estar dissociado da gestão e restrito apenas ao aspecto ambientalista. Diante da demanda por pessoas aptas a coordenar projetos integrados, a formação básica desses profissionais exigidas pelas empresas são as mais diversas. Diferentemente da época em que o princípio da sustentabilidade começou a ser difundido, quando se buscava, sobretudo, pessoas especializadas em meio ambiente, Rosane afirma que atualmente as organizações buscam profissionais das mais diversas áreas. Mas ela pondera que, de maneira geral, os mais procurados são os formados em administração, engenharias, arquitetura e economia. Rigor. O processo de contratação pode ser bastante rigoroso, como afirma o diretor e fundador da Inovatech Engenharia (consultoria de sustentabilidade para construção civil), Luiz Henrique Ferreira. “Buscamos pessoas que tenham o perfil sustentável. Não pode querer trabalhar com sustentabilidade apenas porque está na moda. Tem de enxergar a sustentabilidade não como um meio de salvar o planeta, mas como uma questão de sobrevivência mesmo”, diz. Ele conta que tem enfrentado dificuldade para encontrar profissionais qualificados com esse perfil para trabalhar na consultoria. Para Mac Dowell, porém, “a questão da sustentabilidade é tendência que não tem retrocesso, só tende a se intensificar e se profissionalizar”. Embora admita que apenas um pequeno grupo de grandes empresas pratica gestões sustentáveis, ele alega que, pela relevância que têm na cadeia produtiva, esse grupo impulsiona organizações de médio e pequeno porte a também adotar essas práticas. Para ilustrar a expectativa “promissora”, Mac Dowell cita pesquisa feita em 2011 pela Abraps em parceria com a consultoria Deloitte. O estudo apontou que 26% das 23 empresas entrevistadas pretendiam ampliar o quadro de funcionários de sustentabilidade. O levantamento também mostrou que o piso salarial desses profissionais variava, na época, entre R$ 2.790 e R$ 25 mil. Apesar de a pesquisa de 2014 ainda estar sendo elaborada, o presidente da Abraps afirma que as movimentações do mercado indicam que a tendência de 2011 deve se manter. /COLABORARAM FÁBIO CALDERON E GUSTAVO COLTRI Igor Gadelha ESPECIAL PARA O ESTADO
Fonte: O Estado de S. Paulo


Comentários da notícia