Mulheres se diplomam e disputam com os homens os canteiros de obras

A ocasião era festiva, e isto se percebia até mesmo pelas roupinhas caprichadas das crianças, que deixavam o auditório do Senac, no Flamengo, em polvorosa. Seria exigir muito dos baixinhos, ficarem quietos numa formatura. Mesmo sendo suas mães as homenageadas.

Sentadas do lado esquerdo da plateia, vestindo a camiseta amarela do uniforme do projeto “Mãos na massa”, estavam as 60 mulheres que receberiam o certificado de formação para atestar que estão aptas a enfrentarem as exigências do setor de construção civil. Como lidar com o peso, com as ferramentas difíceis de manipulação, a convivência com homens pouco habituados a terem mulheres no canteiro de obras, tudo isso faz parte da capacitação que recebem em 460 horas de aulas no campo e na escola. A manhã de ontem (12) foi de encerramento para aquela turma, décima quinta desde que o projeto, idealizado pela engenheira civil Deise Gravina, começou em 2007.

E faz todo sentido estarem festejando. No fim das contas, quem estava ali conseguiu sair vitoriosa num processo de seleção que excluiu outras 540 mulheres candidatas. O projeto é pago desde sempre pela Petrobras, que desta vez exigiu que as beneficiadas fossem da região de São Gonçalo, área que faz parte do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). É uma espécie de mitigação no aspecto social pelos danos provocados pelas obras do maior empreendimento único da empresa, investimento de 8,4 bilhões de dólares que está paralisado, sem data certa para ser retomado. Não custa lembrar que os trabalhos foram interrompidos por conta das apurações da Operação Lava Jato, que não tem se contentado em prender os executivos corruptos, mas estraçalha também as empresas envolvidas nos processos. Sobre este assunto, merece ser lida a entrevista que fiz recentemente com o sociólogo e escritor Jessé Souza.

Dada a grandeza da empresa madrinha provedora, tudo ali era numa escala muito menor do que a real necessidade da região, do estado, do país, e do que poderia ser oferecido. As mulheres diplomadas agora ainda terão que buscar um emprego num mercado de trabalho desanimador – os últimos dados do IBGE mostram que a taxa de desemprego é maior entre mulheres (13,6%), pretos (14,6%) e pardos (13,8%), jovens com até 17 anos (40%) e entre trabalhadores sem ensino superior.

Mas ontem foi dia de festa, e eu estava ali a convite dos organizadores do Projeto Mão na Massa para observar a celebração. Como é meu costume, aproveitei para refletir enquanto ouvia alguns relatos emocionantes das vitoriosas.

“Não é fácil, mas não é impossível. Hoje sou a única mulher na minha equipe e muito respeitada como profissional. Sou apaixonada pelo que faço. Mas, no início, teve um dia que eles deixaram um caminhão de cimento para as mulheres descarregarem. Éramos umas vinte. Eu disse: ‘vamos nos unir que a gente consegue’. E conseguimos”, disse, ao microfone, Leci Mota, que trabalhou no PAC do Alemão e se formou na turma de 2009.

As beneficiadas são quase todas negras, que vivem em situação de vulnerabilidade social, viúvas de homens vivos, como lembrou Deise Gravina. Ou, nas palavras de Cristiane Malungo, representante do Sebrae, chamada à mesa composta por outras entidades que ajudam o Mão na Massa, elas são o retrato do pé da pirâmide, “que quando se movimentam como estão fazendo, desestruturam a sociedade”. A madrinha, que ocupou o lugar central na mesa, como não podia deixar de ser, foi a representante da Petrobras Marcela Silva e Souza. Havia uma justificada emoção no ar. A cada fala de suas colegas as diplomadas vibravam, torciam, aplaudiam, seguindo o estilo de sua mentora, Deise Gravina, uma autointitulada inimiga dos protocolos.

Geisa Garibaldi, também ex-aluna, hoje uma micro empresária da “Concreto Rosa”, firma criada por ela com outras ex-alunas do projeto, uma espécie de “faz-tudos-mulheres”, foi chamada ao microfone para contar sua experiência. Deu o tom certo, ajudou-me a alinhavar o pensamento: não havia espaço, ali, para melodramas. A realidade de cada uma requer união de todas, isto sim.

“A gente não precisa se esforçar para ser como os homens. Não romantizo sofrimento. Mas também não acredito em carreira solo, a gente tem que se unir. A maioria das mulheres aqui é negra, somos mães, tanto que chamo de “Mãe na massa”. Precisamos nos unir, dar as mãos”, disse.

Quando a festa acabou, busquei Geisa para conversar. Fiquei sabendo que tem um filho de nove anos, Caetano, mora em Pilares, tem o ensino médio completo e hoje, além de empreendedora, também é ativista da causa lésbica. Hoje se relaciona com mulheres, sempre gostou de consertar as coisas em casa, e adorou quando teve a oportunidade de fazer o link do que ela tanto gostava com uma chance de se profissionalizar. Foi assim que o Mãos na Massa entrou na sua vida:

“Pensei assim: preciso deste certificado para entrar num canteiro de obras, comprar uma moto e ser feliz. Estava muito triste na época, há três anos, porque tinha acabado um relacionamento. Não comprei a moto, o relacionamento não voltou e eu criei a Concreto Rosa porque decidi que não queria trabalhar em canteiro de obras. Passei a querer trabalhar com mulheres porque os homens já têm muitos privilégios. Foi maravilhoso porque eu já fazia trabalho como pintora para as amigas, em casa, mas no curso aprendi hidráulica e consegui linkar mais uma coisa dentro do que eu fazia”, disse ela.

Geisa foi a 402ª mulher inscrita e não passou na primeira entrevista:

“Não sei porque! Eu não tinha ninguém que me ajudasse a me manter, estava desempregada, moro sozinha, ou seja, estava certinha no perfil que eles exigiam. Mas quando soube que não fui classificada eu comecei a ligar diariamente para o projeto. A atendente já até conhecia a minha voz. O que eu queria, e acabou acontecendo, era entrar no lugar de alguém que desistisse”, contou-me ela.

A empresária não acha que é preciso competir com os homens em canteiro de obras. Até porque, as histórias que ouve das experiências de mulheres que trabalham neste setor não a deixam muito confortável.

“Não quero isso para mim. Por isso abri um outro campo de possibilidades para mulheres que também não querem. O que eu quero é ter igualdade, não preciso competir e ganhar dos homens. O que fazemos na Concreto Rosa é muito mais um trabalho de rede, acredito muito nisso. E criamos uma relação de intimidade com nossas clientes. É o máximo. Sempre vou atender os pedidos com uma das associadas da Concreto, e no fim das contas a gente acaba conversando, tricotando com a mulher que nos pede o serviço. Até meu signo elas ficam sabendo, quantos anos eu tenho... Elas ficam à vontade, e isso é muito bom para todo mundo”, disse-me Geisa.


Fonte: https://g1.globo.com/natureza/blog/amelia-gonzalez/post/2019/03/13/mulheres-se-diplomam-e-disputam-com-os-homens-os-canteiros-de-obras.ghtml


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