Denise Hills: "A inovação, sem dúvida, vem da diversidade"

Quando pensamos em inovação, muitas vezes a primeira imagem que surge é a de tecnologias disruptivas – e, no ambiente dos negócios, é recorrente a percepção de que elas são uma premissa para que uma companhia seja inovadora. Há quem associe a inovação a elementos diferentes da inteligência artificial ou da internet das coisas. Para a presidente do conselho da Rede Brasil do Pacto Global e Chief Sustainability Advisor do Itaú Unibanco, Denise Hills, a inovação tem uma outra origem: a diversidade.

Presente no Ring The Bell For Gender Equality, realizado na B3, Denise defendeu a importância do debate sobre igualdade de gênero para as empresas. "Dos 200 maiores PIBs do mundo, 154 são empresas. Por que esses negócios iriam ignorar e deixar para trás metade do mercado?", questiona.

Em conversa com Época NEGÓCIOS, a executiva compartilhou suas percepções em relação à inovação e aos avanços nas discussões sobre diversidade nas empresas.

Do ano passado para cá, o que você percebe que mudou em relação ao evento e à discussão sobre igualdade de gênero?

Dá para ver tanto pelas falas, pela emoção e pelo comprometimento, quanto pelas diferentes atuações das empresas e os exemplos distintos, como essa agenda está crescendo. E também o quanto o debate é sobre negócios que estão acontecendo e sobre as possibilidades que existem. Não faz nenhum sentido, inclusive sob o ponto de vista econômico, a gente deixar metade do mundo fora da conversa da própria economia. É sobre isso que a Bolsa, as empresas e o Pacto Global estão falando. Um número simples para dizer o quanto isso mudou de um ano para o outro é ver que estávamos falando de 50 bolsas no ano passado e estamos falando de mais de 80 este ano. Então eu acho que esse já não é mais um movimento, é quase uma aliança. E cada vez mais esse vai ser um assunto do mundo tradicional e não do mundo que precisa mudar.

Pela sua experiência em relação aos conselhos de empresas, um espaço ainda pouco ocupado por mulheres, o que falta ser feito para mudar essa realidade?

Apesar do tema já ser maduro e o assunto ser debatido há tempos, eu acho que falta ainda um pouco de protagonismo. Falta ainda um desafio dessas mulheres contemporizarem o que é o trabalho ideal, a vida ideal. E também como as empresas estão conseguindo acelerar esse movimento, treinando as suas próprias lideranças e ao mesmo tempo falando com essas mulheres – muitas vezes empreendedoras ou intraempreendedoras – que, sim, esse lugar pertence a elas também. Falta um pouco de tempo, menos consciência. Podem ter mais programas como mentoria, que aceleram essa questão. E, principalmente, acho que a melhor contribuição aqui é a liderança que hoje está nos cargos de poder e nos conselhos entender a participação da mulher como um olhar diferente – e diferente quase sempre é inovação. É mais um ponto de vista, e não o “errado”. Muitas vezes nós ficamos no preto e no branco e 90% das nossas decisões precisam de muito mais olhares do que um só modelo. Essa é a principal oportunidade, isso no desafio tanto de presidências e conselhos como também de participação na política e lideranças em todos os sentidos da sociedade.

A inovação, tão almejada pelas empresas, viria então de trazer esses olhares?

Sem dúvida, virá da diversidade. Isso porque ela promove, no mínimo, um ponto de vista diferente. Quase todas as empresas, quando você fala sobre negócios, embora existam negócios mais dedicados a um setor ou outro, você contrata, produz e vende em geral para países que são diversos. Todas as vezes que você tiver um olhar só ou menos olhares sobre um desafio, a sua visão vai ser mais limitada. Então quanto mais diversidade de experiências, de ponto de vistas e principalmente de representatividade às vezes do próprio mercado você tiver, maior a probabilidade de você alcançar com mais clareza um movimento que está acontecendo agora.

Você desenvolve um trabalho de mentoria. Como é a sua atuação?

O Itaú tem vários processos de mentoria e a ONU também. Dentro da ONU nós temos também o trabalho de empoderar refugiadas que, dentro da linha de diversidade e dos temas de gênero, são as mais vulneráveis. Existe um trabalho para que essas mulheres entendam a nossa cultura e também se adaptem aqui. Além de todas as questões normais em relação à diferença de protagonismo e liderança entre homens e mulheres, elas precisam se adaptar também à nossa cultura, o que é muito interessante. Muitas dessas mulheres vieram de países do Oriente Médio, por exemplo, e relatam que, quando chegam aqui, acreditam que o Brasil não é preconceituoso. Isso porque tudo na vida é questão de referência. Então é muito interessante ver isso e ao mesmo tempo preparar as empresas para receberem essas mulheres, que contribuem muito com um ponto de vista diferente. Acho que dentro das empresas, no Itaú inclusive, existem vários programas em que as próprias mulheres incentivam outras mulheres e contam um pouco da sua jornada, que não é perfeita, tem acertos e erros. O que nós queremos cada vez mais é que as mulheres não mimetizem um comportamento que muitas vezes é o masculino, mas que elas possam ser 100% do melhor delas no lugar que elas forem ocupar – criando novos modelos e promovendo o empreendedorismo.


Fonte: https://epocanegocios.globo.com/Mercado/noticia/2019/03/denise-hills-inovacao-sem-duvida-vem-da-diversidade.html


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