Minoria, professores homens de educação básica ganham mais

24/04/2014 - No Brasil, a cada cinco professores da educação básica, só um é homem; pesquisa reúne relatos de preconceito Quando pensa sobre os seus anos de ensino fundamental, de quantos professores homens você recorda? É bem provável que você não tenha tido nenhum professor do sexo masculino no ensino infantil nem nos anos iniciais do fundamental. É mais comum encontrá-los nas séries mais avançadas, em que já existe mais de um professor para cada disciplina. Segundo dados do Censo da Educação 2012, do total de 2 milhões de docentes da educação básica brasileira, 411 mil deles são homens, e 1,6 milhão, mulheres – ou seja, para cada 4 mulheres, há um professor do sexo masculino. Na educação infantil, exercem a função 429,8 mil mulheres e apenas 13,5 mil homens. Apesar de ser uma profissão desempenhada predominantemente por mulheres, os docentes homens ganham mais em todas as etapas da educação. No Censo de 2010, os professores homens de universidades recebiam, em média, R$ 5.403,81, e as mulheres, R$ 3.873,18. No ensino pré-escolar e fundamental, as professoras informaram receber R$ 1.258,67, e os professores, R$ 1.685,55. No ensino médio, docentes do sexo masculino recebiam R$ 2.088,56, e do feminino, R$ 1.822,66. A pós-doutora em ciência da educação Amanda Viveira Rabelo não considera que a diferença salarial tenha relação com preconceito. “Segundo constatei em minha tese, os homens têm maior facilidade de progressão na carreira para cargos de gestão, ganhando geralmente salário maiores, por estarem em cargos que ganham mais”. Por outro lado, Amanda, que também é autora de uma pesquisa sobre as representações de gênero que envolvem a docência nos primeiros anos do ensino fundamental, em que analisou casos do Rio de Janeiro e de Aveiro, em Portugal, conclui que a renda maior não garante aos professores de séries iniciais uma posição de respeito; pelo contrário. Minoria nessa fase do ensino, a presença do professor do sexo masculino na sala de aula pode provocar reações de preconceito e estranhamento. A pesquisadora entrevistou 149 professores do ensino público no Estado do Rio de Janeiro e 60 no distrito de Aveiro, em Portugal, e constatou que os professores homens das séries iniciais sofrem com questões de gênero – mais fortemente no Brasil –, definidas pela diferenciação social de atributos diferentes de homens e mulheres. No Rio de Janeiro, 43,54% dos entrevistados já presenciaram discriminações, enquanto em Aveiro foram 15,25%. A pesquisadora atribui o resultado à diferença cultural e hierarquia da profissão docente: no Brasil, os anos iniciais são menos remunerados, enquanto em Portugal a remuneração é feita por carga horária, não havendo diferenciação entre as séries. “O dado mostra que, no Brasil, a discussão de gêneros não está muito desenvolvida, está começando. O assunto precisa avançar mais aqui”, diz Amanda. publicidade Homofobia, medo de assédio e renda Entre as principais situações de preconceito relatadas pelos entrevistados estavam homofobia, a ideia de que homens são incapazes de lidar com crianças por serem indelicados ou autoritários, o pressuposto histórico de que o cargo se trata de um trabalho feminino, o medo dos pais da pedofilia e assédio sexual, além da concepção de que a docência é uma carreira pouco rentável para homens que querem formar uma família. A exclusão de decisões nas escolas, a falta de apoio familiar na escolha profissional e discriminações por parte de colegas e pais também foram relatadas. Amanda conta que um dos docentes entrevistados no Rio chegou a receber uma carta anônima na qual o autor ameaçava denunciar o professor por pedofilia. Nesse caso, a direção da escola apoiou o professor e convocou uma reunião para esclarecer a situação. Outro docente brasileiro relatou que funcionários da escola o chamavam de homossexual, apenas por trabalhar com crianças. Em outro relato, o professor contou que a diretora da escola, quando o viu com crianças no colo, pediu para que ele não repetisse o gesto. Ele se sentiu discriminado, afirmando que “ela não falaria isso para uma professora”. Apesar das situações negativas, Amanda acredita que há um lado positivo. “A presença deles nas séries iniciais é uma forma de inserir as questões de gênero na educação, demonstrando às crianças que homens também podem escolher essa atividade com sucesso, além de evidenciar que a aptidão para o magistério não depende do sexo." Preconceito histórico O discurso para a entrada da mulher no mercado de trabalho no século passado era baseado no fato de que ela já cuidava dos filhos e teria mais paciência para ensinar no magistério. A ideia está na origem do preconceito que hoje existe com os professores homens. “Esse pensamento precisa ser desconstruído com a entrada de mais homens na docência das séries iniciais. Eliminar o preconceito é um processo gradativo. Os homens terão de lecionar e mostrar que são capazes. Ações de conscientização por parte do governo também ajudam na aceitação”, sugere Amanda. A questão da hierarquia no salário também pode explicar o fato de professores homens serem mais comuns em disciplinas específicas. “Muitos optam por não seguir na pedagogia e escolhem licenciaturas específicas para ganhar mais”, afirma Amanda. Por ter salários baixos, existe uma ideia cultural e antiga segundo a qual a profissão não serve para homens porque eles não podem receber tão pouco, já que seriam os responsáveis por sustentar as famílias - hoje eles representam 61,29% dos responsáveis pelos domicílios, contra 38,71% de mulheres, segundo o Censo 2010 do IBGE. Há dez anos, os homens representavam 75,09% dos chefes de família e as mulheres 24,91%. O dado mostra que as mulheres estão ganhando espaço na renda familiar, apesar de ainda receberem menos. O vice-presidente do Centro do Professorado Paulista, Silvio dos Santos Martins, que foi professor da educação básica quando começou a lecionar, em 1964, confirma que, no passado, havia um número maior de professores do sexo masculino. Martins reafirma a ideia do homem como chefe da família, sendo natural, para ele, que procurasse uma profissão financeiramente mais compensatória. “Naquela época, o ensino médio tinha três linhas de ensino: a científica, que dava enfoque às ciências exatas, o clássico e o chamado normal. Quem escolhia o normal já saía do ensino médio podendo exercer uma profissão. Os meninos escolhiam essa opção”, conta o professor, que afirma nunca ter sofrido preconceito por ser homem. Professor sofreu preconceito por parte das professoras da família Já o professor Kleber da Silva Aguiar, que atualmente leciona no ciclo I do ensino fundamental, no 4º ano, conta que, nos 10 anos de profissão, chegou a sentir preconceito no início. “Com o tempo, fui pegando afinidade com os pais dos alunos. Quando entrei, as reuniões contavam com a presença de mais pais do que mães, que queriam me conhecer. Isso foi normalizando com o tempo, conforme a comunidade foi me conhecendo. As crianças geralmente gostam do professor homem, mesmo que ele assuma uma postura mais firme do que as mulheres, que tendem a ser mais maternais”, conta. Aguiar também sofreu preconceito na família. “Minha família é de professoras, mas não apoiaram quando decidi seguir o mesmo caminho. Lidei com isso e também com o estranhamento no trabalho de forma indireta, mostrando competência. Hoje em dia está tranquilo”. O professor diz que repensa a profissão que escolheu, mas não por questões de preconceito, e sim pela desvalorização do professor brasileiro, tanto em questões salariais como de reconhecimento. Mas incentiva os homens a seguir o magistério. “A questão do preconceito infelizmente é uma herança da cultura paternal. Mas o professor homem não pode se abalar, deve mostrar que é capaz de exercer a profissão de igual para igual”, aconselha. “Escolhi trabalhar com crianças porque ver nos olhos delas uma descoberta atrás da outra é muito estimulante.” Proporção de homens cresceu desde os anos 1990 Segundo dados da Associação dos Professores e Servidores Públicos do Magistério Oficial do Estado de São Paulo (Aproesp), de 1990 a 1995, o conjunto do magistério era composto por 93% a 95% de mulheres em São Paulo. Atualmente, as mulheres representam 80% a 83% do corpo. “Houve uma ascensão do gênero masculino na carreira do magistério, mas ainda muito tímida”, diz o professor e presidente da Aproesp, Elias Rahal Neto. Neto acredita que, independentemente de gênero, as competências e habilidades é que influenciam no exercício da profissão. “O preconceito parece ser bastante verdadeiro, pois a sociedade brasileira é preconceituosa em várias situações. Porém, conheço professores que atuam no ciclo I do ensino fundamental e são extremamente competentes, com formação pedagógica para atuar tão bem quanto as representantes do gênero feminino. Só é preciso exercitar as habilidades de lidar com crianças nessa idade por meio da capacitação.” Mais números Os professores homens já foram maioria no ensino superior. Segundo o Censo 2000 do IBGE, 65.554 mil homens lecionavam nessa etapa do ensino, contra 58.760 mil mulheres. Dez anos depois, no Censo 2010, as mulheres já haviam ultrapassado os homens: eram 119.930 mil contra 101.565 mil homens. Porém, a diferença não era tão acentuada quanto nas séries iniciais. Em 2000, dos professores de 1ª a 4ª séries do fundamental, 149,1 mil eram mulheres e 16,2 mil eram homens. No Censo 2010, o resultado desfavorável aos professores homens se repetiu: no ensino fundamental, eles eram 260,3 mil e elas, 1,2 milhões. No ensino pré-escolar, havia 548,7 mil mulheres contra 88,4 mil homens. Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Cartola - Agência
Fonte: TERRA


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