Acabou o dinheiro farto (e fácil) para o Brasil

16/04/2014 - Conrado Esber e Ricardo Lacerda Sócio-diretor da maior gestora de fundos de Private Equity do sul vê 2014 como um ano para o Brasil, enfim, investir em infraestrutura. Mas os recursos serão escassos, alerta Dalton Schmitt Jr. Por Conrado Esber e Ricardo Lacerda Como sócio-diretor da CRP Investimentos, a maior gestora de fundos de private equity do sul do país, Dalton Schmitt Jr. (foto) sabe que o momento é de dificuldade para quem vive de vender e promover o Brasil a investidores internacionais. Nesta entrevista a AMANHÃ, o economista com mestrado em finanças desenha um quadro pouco alentador para 2014, e alerta que quase nada sobrou daquele quadro de euforia de cinco anos atrás. “O Brasil não é mais a oitava maravilha do mundo e as incertezas do resto do mundo não eram tão problemáticas quanto pareciam”, diz Dalton. Para ele, está mais do que na hora de o Brasil fazer investimentos em infraestrutura para alargar seus horizontes de crescimento econômico. E 2014 é o ano para isso, ainda que tudo aponte para mais um período de baixo crescimento do PIB A atual situação econômica do Brasil o preocupa? Ano passado, o Brasil cresceu menos do que deveria e do que se esperava. O ambiente de investimento já vinha se degradando por aqui desde antes das manifestações. Depois, então, esse clima de insegurança fez com que os investidores internacionais, empresários, pudessem ver que a situação se complicou. A renda fixa paga prêmio ainda [para o investidor]. Mas se olharmos para o investimento de longo prazo, a situação geral dos negócios, e da infraestrutura, temos problemas. Até que ponto a falta de investimento estrangeiro limita o crescimento? Todos os investidores estão tendo cuidados gigantescos. Há uma baixa disposição em correr riscos desproporcionais. E o Brasil não é mais a bola da vez [entre os mercados emergentes mais atrativos]. Olha a China, conseguindo se sustentar, fazer reformas... não existe mais preocupação radical. Os Estados Unidos estão sendo ajudados pela questão dos juros e vão sugar investimentos para lá. O cenário global acabou se alterando por conta de dois movimentos: o Brasil não é mais a oitava maravilha do mundo e as incertezas do resto do mundo não eram tão problemáticas quanto pareciam. China, Europa, EUA não estavam tão “micados”. Cinco anos atrás, vivemos a época de achar que tudo lá fora dava problema e que o Brasil era a salvação. As perspectivas para este ano só confirmam que isso mudou. Como será este ano para a economia brasileira? Tudo indica um crescimento baixo este ano. Eu apontaria menos de 2%. Aas oportunidades no mercado internacional mostram Europa, EUA e Ásia como mais confiáveis que o Brasil. A curva de consumo das famílias, que puxou o Brasil, está diminuindo. Esse modelo já teve o ápice. Agora tem conta para pagar, as famílias se endividaram. Compraram carro, casa, eletrodoméstico, tudo com dívida. E isso no momento em que o Brasil para de ter capacidade de absorver mão-de-obra. Então, esse drive [do consumo] não é mais um impulsionador a ponto de sustentar o crescimento mais vigoroso da economia. Tenho algumas dúvidas, mas 2014 será o ano do investimento. Há muitos anos se fala na questão da melhoria da infraestrutura, mas isso tem sido feito aquém do que se esperava por inúmeras dificuldades. Pelas necessidades e pela pressão natural dos negócios, as coisas vão se adequar, é uma questão de tempo. Mas a variável é prazo. Tem dez coisas planejadas para 2014, talvez aconteçam cinco. Sou um pouco mais pessimista, sou muito conservador sobre prazos. A capacidade do país de executar as coisas dentro do planejamento tem falhas. Como a Copa e as eleições devem influenciar no ritmo de investimentos em infra-estrutura? Essas variáveis estão na conta. Quando, há um ano, se pensou como o Brasil iria crescer, Copa e eleições já estavam planejadas. As obras têm que ser feitas, mas isso não é questão de ter vontade e sim de capacidade de execução. É questão de funding (financiamento), de mão de obra, de legislação. São coisas que demoram. A eleição sempre impulsiona investimentos de maneira geral e acho que isso está na conta. Ainda assim acho que temos dificuldades. No momento em que os investidores estão mais seletivos, a relação risco-retorno é outra. Em momentos como esse, os investidores tendem a ser mais conservadores ainda. Então, prevejo investimentos, mas investimentos conservadores. Os bancos estão muito mais seletivos no crédito. Os investidores estrangeiros também. Juros mais altos é vaso comunicante, tira dinheiro do investimento direto para a renda fixa. Que setores da economia brasileira devem conseguir ter um bom ano, apesar do crescimento baixo? 2014 tende a ser ano um muito bom para o agronegócio, com uma safra muito forte, de novo. E isso se reflete em bons resultados para máquinas, fertilizantes, toda a cadeia... Outro setor que a CRP olha com atenção é o de energia. É um setor regulado, que está se readaptando, e energia é algo de que o país precisa. Novas tecnologias estão envolvidas, vemos bons resultados no longo prazo. O setor teve dificuldades em 2012 e 2013, mas vem se recuperando pelo poder e pela força que tem. O aumento da energia eólica, novas tecnologias para controle de eficiência, medidores inteligentes, começa a existir um mercado mais vigoroso em cima de uma base já instalada. Também é um setor em que já temos um investimento, mas continuamos analisando. Temos investimento na Medabil e na Elo (empresa de medidores). Quando investimos em uma empresa temos sempre o cuidado para não investir também no concorrente, para não criar conflito interno. Miramos fazer investimento sempre de cinco anos. Pode variar, mas é o [prazo] que pretendemos. Outro setor que cabe ressaltar, mas temos um pouco mais de dificuldade nesta previsão, é o de serviços. Uma coisa é o restaurante, ok, mas falo de outros serviços. Quando vamos para os Estados Unidos, por exemplo, vemos a quantidade de serviços que faltam por aqui. A gente percebe coisas como alimentação, e outras coisas, como serviços corporativos, de outsourcing, atividades do varejo. Temos procurado olhar, [mas] nossa história como CRP é mais de indústria.
Fonte: Amanhã - Porto Alegre/RS


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