O educador apaixonado pelos palcos (Cultura & Estilo)

14/04/2014 - O empresário Carlos Alberto Serpa costuma comprar as sobras de ingressos das peças que já não atraem mais público aos teatros do Rio para distribuir a professores e estudantes. Seria uma forma de expressar a paixão pelas artes cênicas. Outra é assistir a duas ou três montagens em um só dia. Ele se prepara agora para investir R$ 4,3 milhões em dois teatros novos e na abertura de uma faculdade de teatro na cidade. Além disso, Serpa garantiu os direitos para uma montagem brasileira de Spamalot - versão musical do filme Em Busca do Cálice Sagrado (1975), que Eric Idle, um dos ex-integrantes do grupo cômico inglês Monty Python, transpôs para a Broadway, conquistando três prêmios Tony em 2005. O empresário também está na fila para trazer aos palcos do país The Book of Mormon , de Matt Stone e Trey Parker (criadores da animação South Park ), irreverente musical que ganhou nove prêmios Tony no ano passado, e ainda criou o prêmio Cesgranrio de Teatro, que distribui mais de R$ 300 mil aos vencedores. Serpa manifesta arroubos de criador em espetáculos que ele mesmo escreve e produz na Casa de Cultura Julieta de Serpa, um palacete de estilo neoclássico francês na praia do Flamengo, que adornou com alguns exemplares da sua coleção de obras de arte. A cultura é fundamental no processo educativo. A falta de ambiente cultural compromete o desempenho acadêmico , diz o empresário que construiu uma carreira bem-sucedida como educador à frente da Fundação Cesgranrio - responsável pela seleção de 70 milhões de brasileiro em quatro décadas de atividade -, mas que parece cada vez mais inclinado a dar vazão ao empreendedor cultural. Serpa quer fazer algo importante para a cultura , afirma o professor de teatro Rubens Lima Júnior, cotado para dirigir as montagens de Spamalot e The Book of Mormon . Ele podia pegar o dinheiro dele e ficar passeando o tempo todo na Europa, mas decidiu investir em cultura - e isso merece crédito , diz Tadeu Aguiar, que dirigiu a primeira incursão do empresário (com dinheiro do próprio bolso): a produção Para Sempre ABBA , um musical embalado pelos sucessos do grupo sueco que esteve em cartaz no ano passado na zona sul do Rio. O mais recente desafio de Serpa é o projeto de revitalização do Rio Comprido. O bairro da região central da cidade reúne instituições importantes - do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) ao campus da Fundação Cesgranrio; da Fundação Roberto Marinho ao Centro Universitário UniCarioca -, mas costuma aparecer no noticiário por causa da violência. O processo de degradação se acentuou quando virou bairro de passagem com a construção do Elevado Paulo de Frontin, que dá acesso ao túnel Rebouças, principal ligação entre as zonas norte e sul da cidade, e o crescimento das favelas da vizinhança. A ideia é transformar a região no SoHo carioca - uma réplica da área de Manhattan que se tornou endereço de galerias de arte e grifes de vanguarda nos ano 1980. O projeto prevê a restauração das fachadas das casas e sobrados, a reurbanização do viaduto, a implantação de oficinas de arte e a instalação de jardins suspensos nos pilares do elevado. Buscamos o apoio da prefeitura e da sociedade para viabilizar esse processo de resgate , afirma o empresário. Serpa se formou em engenharia industrial e metalúrgica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), mas nem precisou buscar um lugar no mercado de trabalho. Virou logo professor. Em seguida, diretor de admissão da instituição, coordenador geral do projeto que implantou a reforma universitária em todo o país e vice-reitor - o único não religioso a assumir, ainda que interinamente, a reitoria da instituição. A cultura é fundamental no processo educativo. A falta de ambiente cultural compromete o desempenho acadêmico , diz Serpa São conquistas nada desprezível para alguém que se define como um ex-pequeno playboy e que durante sete anos enrolou a namorada de faculdade porque queria aproveitar a vida. Em 1971, antes de completar 30 anos, já era presidente do Centro de Seleção de Candidatos ao Ensino Superior do Rio de Janeiro (Cesgranrio), criado por 12 instituições para realizar o primeiro vestibular unificado da região metropolitana do Rio. Quarenta e três anos depois, Serpa pilota uma potência educacional que começou a ser construída com o vestibular e hoje se espalha por concursos para empregos públicos no Banco do Brasil ou na Petrobras e pelo Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Só no ano passado, a prova, que serve como vestibular nacional para as universidades públicas, foi realizada por 5 milhões de estudantes. A distância que separa o educador do empreendedor cultural é, porém, cada vez menor. A Fundação Cesgranrio é historicamente financiadora de projetos musicais, literários e teatrais. O ponto de partida foi a criação do Instituto Cultural Cesgranrio, em 1992, que instituiu um fundo de cultura com recursos do orçamento da fundação para financiar a produção de peças e de oficinas teatrais, a promoção de fóruns de integração cultural entre os Estados do Sudeste, programas de revitalização de centros culturais, a implantação do Centro de Memória do Movimento Estudantil Brasileiro, em parceria com a União Nacional dos Estudantes (UNE), a organização e digitalização de cerca de 60 mil documentos dos arquivos do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) e a realização da Rio-Cult, uma feira de cultura e negócios no centro de exposições do Riocentro. O instituto, reciclado e rebatizado como Centro Cultural Cesgranrio há dois anos, ainda mantém as oficinas de teatro e instituiu concursos de novos talentos em pintura, poesia e conto. No ano passado promoveu a primeira edição do Prêmio Cesgranrio de Teatro, que distribuiu R$ 25 mil a cada um dos ganhadores em 12 categorias. Os investimentos no ano passado só para concursos e prêmios chegaram a R$ 600 mil. Neste ano começam as obras para a reabertura do teatro da fundação, para 280 pessoas, com orçamento de R$ 800 mil. Outros R$ 3,5 milhões serão aplicados na construção de uma nova sala, com 700 lugares, também no campus do Rio Comprido. As duas devem ser inauguradas até 2015. Ainda está previsto para este ano a primeira faculdade da fundação para a formação de tecnólogos de recursos humanos, tecnólogos de avaliação e tecnólogos em teatro. A fundação não é o único instrumento do empresário em sua aposta cultural. Serpa investiu dinheiro próprio para homenagear a mãe e criar um espaço nobre na cidade. A Casa de Cultura Julieta de Serpa é resultado da combinação entre oportunidade e negócio. O palacete construído no início do século passado, como presente de um comerciante apaixonado à mulher, foi uma das primeiras casas de frente para o mar no Rio. Quase deu lugar a um edifício, mas acabou parcialmente salvo pelo tombamento. O empreendedor que comprara o imóvel de olho no lucro nem pestanejou quando Serpa ofereceu R$ 800 mil, parte do dinheiro que obteve com um leilão de arte que fez no casarão. As donas do Casa Cor, que decidiram depois promover o evento ali, gastaram mais na reforma. O lugar, que tem também salão de chá, bistrô, restaurante e um piano-bar, onde já se apresentaram Billy Blanco, Roberto Menescal e Diogo Nogueira, foi palco de ao menos 20 produções escritas e roteirizadas pelo próprio empresário. Todas as montagens têm figurino de Elizabeth Serpa, a namorada que o empresário enrolou durante quase uma década, mas com quem está casado há 36 anos. Serpa não está abandonando a educação, mas parece que tem uma paixão cada vez mais latente pela cultura , diz o diretor Rubens Lima Júnior. Os dois se conheceram há três anos, na montagem de Fascinante Gershwin , homenagem ao compositor americano George Gershwin (1898-1937) dirigida por Lima Júnior. Serpa chamaria o diretor para a sua primeira investida na produção, de Hollywood, a Magia do Cinema , uma compilação de algumas das músicas mais marcantes da época de ouro dos musicais no cinema (com argumento do próprio empresário), e para as montagens universitárias de Spamalot , em 2012, e de The Book of Mormon , que patrocinou no ano passado. A gente tem os mesmos gostos teatrais. Musicalmente e cenicamente nos acertamos , afirma lima Júnior. É bom ter alguém que constrói teatro no Rio em um momento em que todo mundo está destruindo , diz Tadeu Aguiar, que prepara para o segundo semestre a encenação de Ou Tudo ou Nada , primeira versão teatral brasileira do filme britânico de 1997 sobre um grupo de metalúrgicos desempregados que decide fazer strip-tease para ganhar a vida; Leo Jaime e Eriberto Leão estão no elenco. Há 20 anos, quando decidiu pedir emprestadas algumas obras de arte para a produção de O Grito dos Anjos , Aguiar ouviu um surpreendente Sim do empresário. Depois, até passou a ser um frequentador eventual dos jantares em que o casal reúne os VIPs cariocas no apartamento de frente para o mar de Copacabana. No ano passado, foi chamado por Serpa para dirigir Para Sempre ABBA . A paixão pela cultura é herança da mãe. Julieta deixou para o filho um rico acervo de obras colecionadas pelo pai dela - Justiniano de Serpa (1852-1923), governador do Ceará entre 1920 e 1923 e fundador da Academia Cearense de Letras -, além do gosto voraz pela música e pelo teatro. Foi assim que ela levou o menino de apenas nove anos para assistir a Eu Quero Sassaricá , um dos grandes sucessos de Walter Pinto (1913-1994), o rei do teatro rebolado, no Teatro João Caetano, na praça Tiradentes, um dos redutos da boemia carioca. Serpa ainda deve à mãe a devoção à Nossa Senhora da Glória. A santa teria feito o milagre que o salvou da morte por infecção pulmonar quando tinha apenas quatro meses de vida. Em troca, Julieta prometeu que o filho ficaria seis anos sem festas de aniversário, trocadas pelo pagamento das juras à santa. Mas a primeira imagem com que ele começou um acervo próprio de peças sacra foi uma de Nossa Senhora da Conceição, do século XVIII, comprada com o dinheiro das aulas particulares de matemática que dava aos colegas de escola. Virou vício , diz Serpa. A paixão logo se transformou em fonte de renda. O empresário chegou a ter um antiquário e uma galeria de arte. Acumulou um acervo de 2 mil peças em viagens pelo mundo, em leilões e até como retribuição a manifestações de carinho. A pintora Djanira (1914-1979) costumava presenteá-lo com quadros toda vez que ele ia lhe fazer companhia em suas noites de insônia. Parte da coleção - com obras de Di Cavalcanti (1897-1976) e Tomie Ohtake misturadas a raridades como uma cadeira de Dom Pedro II (1825-1891) e um sabre de Napoleão Bonaparte (1769- 1821) - enfeita o apartamento de Copacabana, os salões da Casa de Cultura Julieta de Serpa, corredores e salas da Fundação Cesgranrio e um escritório no centro da cidade que o empresário mantém para realizar negócios com arte pela internet. Ganhei mais dinheiro com arte do que como educador. Escrever uma peça é o máximo, mas o investimento em cultura ainda é uma questão de satisfação pessoal. O estímulo está na paixão.
Fonte: linearclipping.com.br.


Comentários da notícia