Novas regras colocam pesquisa médica em risco

14/04/2014 - Kelli Kadanus, especial para a Gazeta do Povo A aprovação de novas diretrizes curriculares para os cursos de Medicina em todo o país, com foco na avaliação dos alunos e na obrigatoriedade de experiência mínima no Sistema Único de Saúde (SUS), traz preocupação à classe médica em relação ao incentivo a pesquisas na área. O documento apresentado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), no início deste mês, ainda precisa ser analisado e homologado pelo ministro da Educação, Henrique Paim. As universidades terão um ano para se adaptarem a partir da data de publicação das novas regras. O presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM), Maurício Marcondes Ribas, acredita que as novas normas devem desestimular a pesquisa a médio e longo prazo. ?Precisamos formar médicos que sejam analistas, mas vamos tirar cada vez mais o aluno da pesquisa e colocar no hospital?, explica. Veja mais detalhes sobre as mudanças ao lado. O vice-coordenador do curso de Medicina da UFPR, Edison Tizzot, também demonstra preocupação com o assunto. ?É algo meio desproporcional. Nós já temos atividades no SUS, temos uma carga teórica muito grande, temos que estimular pesquisa e extensão. Fica um bloco muito comprimido para dar uma visão global da medicina para o aluno?, diz. Já o coordenador adjunto da graduação de Medicina da PUCPR, José Knopfholz, não vê empecilhos para o estímulo à pesquisa na universidade. ?Eu penso que o foco assistencial que está colocado na diretriz é que 30% das atividades do regime de internato sejam feitas no SUS, na urgência e emergência e no atendimento básico. Não opina nos 70% restantes, que podem ser vinculados a pesquisas?, defende. Aprovação rápida Outro ponto que gerou críticas foi a rápida aprovação das novas diretrizes pelo CNE. ?As diretrizes de base de 2001 foram estudadas amplamente. Agora faltou diálogo com todos os atores envolvidos nesse processo?, critica o presidente CRM. ?Talvez tenha sido pouco discutido. Foi muito a toque de caixa. Houve participação menor do que deveria?, diz o coordenador de Medicina da Faculdade Evangélica do Paraná, Constantino Miguel Neto. ?Acredito que as diretrizes deveriam ser melhor discutas com as escolas médicas?, critica Knopfholz. Não há prazo definido para a avaliação e homologação das diretrizes. Adaptação do currículo não assusta Diante das novas regras para os cursos de Medicina, o coordenador da graduação na Faculdade Evangélica, Constantino Miguel Neto, acredita que os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) serão beneficiados pelas adaptações necessárias. ?Além do estudante, é preciso colocar um supervisor no local. Isso melhora a qualidade no atendimento?, explica. Pelo fato de os estudantes da UFPR já estarem em contato com o SUS, o professor Edison Tizzot diz que a universidade não terá dificuldade para se adaptar. ?É só uma questão de ajustar a carga horária?, afirma. De acordo com ele, a partir do 1º ano, os alunos devem começar a ter contato com o SUS em casos de menor complexidade. Hoje, o contato inicial ocorre no 3º ano. Para José Knopfholz, as mudanças são bem vindas à PUCPR, contudo, o coordenador adjunto lembra que a presença dos estudantes no SUS não deve ser destinada para cobrir a falta de mão de obra no sistema. ?Se ele estiver de fato no papel de estudante, com supervisão em tempo integral e em um ambiente preparado para a academia, nós vemos com bons olhos?, garante. Avaliação Outra preocupação é a forma como os alunos serão avaliados. ?Se for para avaliar o aluno e o curso é muito interessante. Dá ferramentas para consertar erros no meio da viagem. Se for para concurso de residência, eu tenho muito medo?, diz Miguel Neto. O Conselho Regional de Medicina teme que a avaliação prolifere os chamados medicursos.
Fonte: Gazeta do Povo - Curitiba/PR


Comentários da notícia