Os jovens têm motivos

14/04/2014 - Flávia Oliveira - flo@oglobo.com.br Faixa etária de 18 a 24 anos enfrenta desemprego alto, salário baixo e falta de políticas públicas. E foi às ruas cobrar a conta Foram os jovens os protagonistas da onda de manifestações que eclodiu país afora em 2013. Mães, pais, avôs - adultos, enfim - engrossaram as fileiras no segundo ato, quando a polícia pesou a mão na repressão. O reajuste das passagens de ônibus, estopim dos protestos, foi a ponta de um iceberg que mantinha submersos o desemprego alto, o salário baixo e a falta de políticas públicas para a faixa etária de 18 a 24 anos. A insatisfação brotou de um grupo cada vez mais escolarizado e que forma um contingente de quase 21,7 milhões de eleitores, 15% do total, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2010, estima em 22,4 milhões o total de jovens do país. Marcelo Neri, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), batizou de platô populacional o estoque de 50 milhões de habitantes de 15 a 29 anos, que o Brasil terá de 2003 a 2022. A concentração juvenil, inédita na História, sugere uma grande capacidade de impulsionar transformações sociais e econômicas. E eles começaram a agir. No ano passado, tomaram as ruas contra o reajuste das tarifas de ônibus. Os R$ 0,20 expuseram as dificuldades financeiras de um segmento excluído das políticas oficiais. Estudantes dos níveis fundamental e médio das escolas públicas têm gratuidade nos transportes. O Bolsa Família engloba os lares com crianças e adolescentes de até 17 anos. Ao cruzarem a fronteira da maioridade, os jovens despencam dessas teias. Trabalhadores com carteira assinada têm os benefícios da CLT e o vale transporte. A juventude, não raro, atua na informalidade. Significa que a rede de proteção social no Brasil deixou moças e rapazes, como eles dizem, no vácuo. O saco de bondades do Estado, em grande parte, não os alcança. Num raro exemplo do contrário, a prefeitura instituiu, no reajuste dos ônibus urbanos em 2014, gratuidade para universitários cotistas ou do ProUni, o programa federal de bolsas de estudo para alunos de baixa renda. Em duas semanas, informou a RioÔnibus, cinco mil se inscreveram. Em outras capitais, estudantes de todas as idades pagam 50% da tarifa. Mas os jovens, em geral, pagam passagens de ônibus, trens, metrô. E elas subiram de preço. Eles comem na rua. E a alimentação fora de casa ficou 10% mais cara desde abril de 2013. Eles adorariam morar sozinhos, mas não conseguem sair da casa dos pais. O preço dos imóveis disparou nas grandes cidades. O aluguel, em um ano, subiu 10%; o condomínio, 7%. Eles estão mais expostos ao desemprego. Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2012), a desocupação dos que têm de 18 a 24 anos era de 13,2%. É quase o triplo da taxa (4,8%) dos adultos de 25 a 49 anos. Eles ganham menos. A renda média do trabalho dos jovens beirava R$ 800; a dos adultos, R$ 1.410. Os jovens perdem em quase tudo no mercado de trabalho. Mas ganham na educação. Em 1970, só 3,2% deles estavam na universidade. Três décadas depois, a proporção chegou a 7,3%. Bateu 13,2%, em 2010; e 15,1%, em 2012. Num grupo de 22 milhões, quinze universitários em cada cem jovens são capazes de fazer muito barulho. Mais ainda na sociedade hiperconectada do século XXI, que eles dominam. É o caso, portanto, de ouvi-los. E, já que é ano de eleição, levar para o papel a agenda juvenil em novas políticas públicas. Eles somam duas dezenas de milhões de votos. E têm motivos.
Fonte: O Globo Online - RJ


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