Uma verdade que se repete: educar compensa

15/01/2014 - A ideia de que a educação é boa para a cidadania e para o trabalho é intuitiva e fácil de entender. A mensuração do seu impacto, porém, é uma tarefa complexa, especialmente quando se busca comparações internacionais. Entre países, os sistemas educacionais diferem; a herança cultural é específica; o mercado de trabalho é diferente; as exigências profissionais são peculiares. Tudo isso torna as comparações muito questionáveis. Os pesquisadores ganharam um verdadeiro presente com a liberação dos dados do levantamento realizado pela OCDE em 2013 — Programme for the International Assessment of Adult Competencies (PIAAC). A pesquisa estudou cidadãos de 22 países ao longo das carreiras e não apenas em um ponto no tempo. Os dados se baseiam em amostras bastante grandes. A medida de habilidade educacional foi além das notas em linguagem e matemática e incluiu a capacidade de resolver problemas. É um avanço extraordinário em matéria de pesquisa. As primeiras análises começam a ser divulgadas. Tive acesso a uma delas — Eric A. Hanushek e colaboradores, “Returns to Skills around the World”, Bonn: Institute for Labor Studies, dezembro de 2013. Os autores estudaram os seguintes países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Canadá, Chipre, Coreia do Sul, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Inglaterra, Itália, Japão, Noruega, Polônia, República Checa e Suécia. Do lado do desempenho, os autores estudaram os salários-hora e os benefícios de trabalhadores de 20 a 54 anos. Em uma primeira etapa, foram estudados apenas os que trabalhavam em tempo integral. As amostras variaram entre 816 na Polônia, 1.875 na Dinamarca e 7.178 no Canadá, totalizando 34.447 observações. Resumo abaixo os principais resultados. Os japoneses obtiveram as notas mais altas em capacidade numérica e os italianos, as mais baixas. No conjunto dos 22 países, o impacto da habilidade em matemática foi expressivo. Em média, para cada 1% de aumento naquela habilidade, os salários aumentam 18%. Mas, como era de se esperar, houve muita variação. Nos Estados Unidos, o impacto foi maior do que a média, tendo chegado a 21%; e na Alemanha, a 28%. Retornos mais baixos (em cerca de 15%) foram observados na Bélgica, no Chipre, na Itália, e na República Checa. Retornos relativamente baixos foram encontrados também na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega e na Suécia. Ocorre que, nesses países, a grande maioria dos trabalhadores tem educação homogeneamente alta, lembrando-se ainda que em todos eles os sistemas de distribuição de renda tendem a nivelar os salários. Os autores examinaram a experiência acumulada pelas pessoas ao longo do tempo e o impacto da educação em cada momento. A pesquisa mostrou claramente que o impacto aumenta a partir dos 35 anos. Os maiores impactos foram observados na faixa de idade entre 35 e 54 anos. Pode-se dizer que, nessa faixa, a educação atinge potencial máximo. Para cada 1% de aumento na educação, observa-se um aumento de 38% nos salários, enquanto que, no início da carreira, o impacto é de apenas 13%. Para as pessoas de 35-54 anos, já houve tempo de ajustarem o que apreenderam às necessidades do trabalho. Os pesquisadores encontraram altíssima correlação entre habilidade em matemática e capacidade de resolver problemas (cerca de 80%). O retorno é menor para a habilidade linguística. Mas, quando as duas se juntam, o impacto é enorme. Resultado surpreendente foi observado no lado institucional. O estudo mostrou que, nos países que possuem regras rígidas de proteção do emprego e alto nível de sindicalização e muito emprego público, o impacto da educação nos salários e benefícios tende a ser menor do que nos países em que a contratação e descontratação são mais flexíveis e menos sujeitas à pressão sindical e a presença do Estado no emprego é maior. O dado surpreendeu porque há muitos estudos que mostram uma forte correlação entre a atuação dos sindicatos e salários altos. É verdade, porém, que, nesse caso, os autores levaram em conta a rigidez das regras de proteção do emprego e a participação do Estado, o que pode explicar os resultados. Na conclusão, os autores indicam que a educação tem efeito cumulativo ao longo da carreira, acentuando o seu impacto no salário no decorrer do tempo e só reduzindo esse impacto no fim do exercício profissional. É pena que o estudo não inclua o Brasil. É pena também que o Brasil não disponha de dados desse tipo. Maior pena, porém, é saber que o Brasil está muito atrás na qualidade de ensino quando comparado aos países estudados. Sim, porque este é um país em que muitos recrutadores têm de submeter candidatos a cargos de advogados, economistas e engenheiros a uma prova de ditado — sim, ditado! Na qual muitos são reprovados. Profissionais com nível superior! Tudo isso mostra que temos de correr e que essa corrida é em relação a um ponto móvel, porque nossos concorrentes e os países avançados não estão parados — avançam a cada dia. » JOSÉ PASTORE Professor de relações do trabalho da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Conselho de Emprego da Fecomércio de São Paulo (Kleber Sales/CB/D.A Press)
Fonte: Correio Braziliense / DF


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