Sangue e modernidade: entenda o impacto da ditadura nas universidades do País

31/03/2014 - Período foi marcado pela violência e pelo avanço científico dentro das instituições de ensino A repressão do movimento estudantil, demissões de professores, violência e a censura prévia são lembranças recorrentes da ação dos militares nas universidades públicas durante a ditadura. A história mostra, porém, que além da “caça as bruxas comunistas” os militares também promoveram algumas reformas, que contribuíram para o avanço do ensino superior no Brasil. Memórias de uma batalha universitária em São Paulo Em vinte anos de governo, o número de alunos nestas instituições saltou de 87.665, em 1964, para 571,879, em 1984, de acordo com dados publicados pelo historiador Rodrigo Patto Sá Motta no livro “As universidades e o Regime Militar”. — Faculdades foram desdobradas em institutos, houve um grande investimento em áreas técnico-científicas e o País registrou forte expansão no número de cursos de pós-graduação. Durante a ditadura, também houve um investimento real na infraestrutura dos campi. O fim da cátedra (cargo vitalício dos professores) e as reformas curriculares foram outras mudanças positivas implantadas pelos militares, enumera Motta. Sem deixar de citar os aspectos negativos impostos pelo governo militar, o especialista lembra a repressão política, a censura e o surgimento de uma “cultura do medo” no ambiente acadêmico. — Aconteceram reformas modernizadoras que foram instituídas de forma autoritária e tiveram um custo político muito alto. Tais mudanças teriam tido um resultado melhor se tivessem sido implantadas por um governo democrático, analisa. Invasões e controle nas universidades A primeira intervenção universitária depois do golpe de 1964 ficou conhecida como “invasão da UnB” (Universidade de Brasília). No dia 9 de abril, o exército tomou o campus, prendeu alunos e funcionários. Professor assistente da UnB na época, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, José Paulo Sepúlveda Pertence, lembra que estava dando aula no momento da ocupação. — Estava na sala dando uma aula quando vi os soldados chegarem pelo jardim. Me senti em uma espécie de filme guerra, vivendo algo parecido com o que deve ter sido a tomada da Normandia [ocupação de parte da costa da França realizada pelos soldados aliados na Segunda Guerra Mundial]. Neste caso, porém, os soldados eram do exército brasileiro e estavam interrompendo as aulas da UnB sem nenhum motivo aparente, conta. A "invasão" significou uma mudança nas intervenções em universidades. Depois disto, o governo militar usou outras estratégias para combater a “subversão” acadêmica: entre elas, a exclusão de professores e estudantes de programa de bolsas de estudo. Pertence foi demitido da UnB no em 1965, junto com outros 14 professores. A saída deste grupo causou o pedido de desligamento voluntário de 223 docentes. Para Hélio Doyle, aluno da UnB no período da ditadura militar, as mudanças na universidade tiveram reflexos diretos na qualidade do ensino. — A faculdade sofreu com a demissão dos professores em 1965. A qualidade do ensino caiu drasticamente, chegando ao ponto dos alunos de arquitetura parem o curso par exigir melhorias. A UnB foi criada par ter autonomia, mas acabou sendo enquadrada no modelo vigente nas outras instituições de ensino do País. Desconstrução dos mitos Motta relata que mais de mil alunos foram expulsos das universidades durante a ditadura. Centenas de professores foram afastados ou aposentados compulsoriamente. Logo que chegou ao poder, o regime militar destituiu seis reitores: da UnB, UFSB (Universidade Federal da Paraíba), URGS (Universidade Rural do Rio de Janeiro), URRJ (Universidade Federal do Espírito Santo) e UFG (Universidade de Goiás). Falando sobre o mito da resistência estudantil, o historiador lembra que fora a violência imposta contra aqueles que foram identificados como “inimigos” do governo, foi preservado um clima de suposta “normalidade” dentro das universidades porque a maioria dos alunos e professores não tinha uma orientação política definida. — Existiam alunos e docentes de “direita” e de “esquerda” em todas as universidades, mas a maioria não estava interessada em política. Grupos favoráveis ao governo militar se organizavam e tinham grande poder na UnB, USP, UFRJ e nas outras instituições de ensino que historicamente ficaram famosas pela resistência ao regime, concluiu. Maria Carolina de Ré, do R7
Fonte: Portal R7 - São Paulo/SP


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