O trabalho fica para depois

31/03/2014 - População apta a trabalhar, mas fora do mercado, elevaria desemprego a 7,2% se buscasse vaga RIO — Bernardo Brito diz que não tem pressa para voltar ao mercado de trabalho. Tem 32 anos, dez de formado em Matemática e especialização em Estatística, com passagens por empresas de marketing. Depois de ter sido demitido do último emprego, em uma vaga diferente da que queria, diz que agora está dando um tempo. Ele afirma que oportunidades existem e vão continuar a existir. — Estou vendo isso tudo como uma grande oportunidade de parar para pensar e escolher o que é melhor para mim. Tenho formação boa, currículo, empregabilidade. As oportunidades estão aí. Mas, independentemente do que está sendo oferecido, tenho que achar uma vaga na qual eu faça o que eu quero — afirma. No rol de opções estão um doutorado em Inteligência Computacional, estudar para concurso ou até uma nova investida no mercado para achar uma função mais ligada a seu perfil. Renata Carvalho, de 28 anos, é outra que está fora do mercado, por enquanto. Não tem medo de dizer que a situação, ao menos para ela, está difícil. Experimentou trabalhar em agências de publicidade desde que se formou, em 2008, mas diz que foi vencida pelo cansaço, salário baixo e falta de perspectiva. Agora, faz um mestrado para tentar se tornar professora. A baiana Lália Sousa, de 28 anos, também está fora do mercado. Mora em Madre de Deus, região metropolitana de Salvador. É mãe de Sophia, de 6 anos, e da pequena Elisa, com 8 meses. Quando a primeira filha nasceu, a técnica de documentação de uma empresa do setor de óleo e gás disse que não queria nem tinha condições financeiras para parar. Separou-se, casou novamente. Lália e o marido trabalhavam na mesma empresa. Os contratos terminavam ao fim de cada obra. Com isso, passaram por uma fase de muitas mudanças, que incluiu o Rio de Janeiro, Volta Redonda e Salvador, onde moram atualmente. Da segunda vez que engravidou, decidiu que largaria o emprego depois do término da licença maternidade. O Brasil nunca teve tanta gente fora do mercado de trabalho. No ano passado, esse movimento se intensificou e chamou a atenção de especialistas que passaram a ver na saída de trabalhadores uma das respostas para o país continuar a exibir desemprego baixo, mesmo quando a atividade econômica patina. Um caleidoscópio de razões pessoais está por trás da decisão de ficar fora da força de trabalho: cuidar de filhos, estudar, mudar de vida. Mas Bernardo, Renata e Lália fazem parte de um grupo ainda mais restrito. O de pessoas que, embora fora do mercado e, mesmo sem procurar ativamente uma vaga, estariam dispostas a trabalhar se surgisse uma oportunidade. Esse grupo hoje é formado por 561 mil pessoas que representam uma força de trabalho potencial. Grupo que equivale praticamente à população de Cuiabá (MT) e à metade dos desempregados nas seis principais regiões do país, segundo o IBGE. São, na maioria, pessoas de 18 a 34 anos, bem qualificadas — com ao menos o ensino médio completo. Na maior parte, é formado por mulheres e por filhos que ainda dependem dos pais. — É um grupo que tem um perfil diferente dos que estão fora do mercado e não querem ou não podem trabalhar, formado, sobretudo, por adolescentes e idosos, com no máximo o fundamental completo — observa Adriana Beringuy, técnica do IBGE, responsável pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME). Se esse contingente decidisse voltar ao mercado de trabalho ao mesmo tempo, o movimento seria suficiente para fazer a taxa de desemprego saltar dos atuais 5,1% (dado de fevereiro, da Pesquisa Mensal do Emprego, do IBGE) para 7,2%. — E traria reflexos para a renda. Ao se aumentar a oferta de mão de obra, os salários poderiam começar a cair — afirma Gabriel Ulyssea, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), para quem a discussão sobre pleno emprego ainda é muito focada na taxa de desocupação. — Num ambiente de confiança, com mais renda, as pessoas pensam que podem sair e conseguir retomar depois — afirma o economista Sergio Besserman Vianna, ex-presidente do IBGE e professor da PUC Rio. O aumento do rendimento nos últimos dez anos parece ser a explicação mais recorrente para a mudança de configuração do mercado de trabalho. Com a família ganhando mais, muitos jovens estariam confortáveis para sair do mercado de trabalho. Neste grupo de mão de obra de “reserva”, 16% estavam estudando em alguma escola ou universidade. No caso de Bernardo e de Renata, o apoio dos pais foi fundamental na decisão de deixar de procurar emprego. Hoje cerca de um em cada quatro jovens de 25 a 34 anos ainda mora com pais. Bernardo lembra que ao decidir deixar o trabalho na primeira vez, há cerca de dois anos, a mãe pediu para que ele continuasse trabalhando. A família tinha dívidas na época. Dessa vez, recebeu apoio irrestrito para parar. Renata também teve o suporte do pai, bancário aposentado, com quem mora em Campo Grande, na Zona Oeste, e que sustenta a casa com uma renda de cerca de cinco salários mínimos. — Mais do que nunca, a decisão de trabalhar ou de se retirar do mercado de trabalho é uma tomada em família, principalmente para os jovens — afirma o professor Carlos Alberto Ramos, economista da Universidade de Brasília (UnB). No caso de Lália e de mulheres que deixam o trabalho para cuidar dos filhos, o suporte vem do marido. Ela diz que está disposta a voltar ao trabalho, se surgir uma oferta vantajosa. Poria a filha em uma creche, já que teve que dispensar a babá, depois que a regulamentação do trabalho doméstico tornou o serviço mais caro. — Ficou difícil arcar com os custos de ter mais de uma pessoa trabalhando em casa (ela tem uma empregada). Ulyssea, do Ipea, lembra que as brasileiras ainda têm uma baixa participação no mercado de trabalho em comparação com as americanas. Segundo ele, enquanto entre as brasileiras, a parcela das que trabalham e procuram emprego está em 49%, no caso das americanas fica em 60%. Para ele, menos mulheres retornam ao mercado de trabalho após terem filhos. Mão de obra de “reserva” tem diminuído Transporte público precário também afasta potenciais trabalhadores do mercado. A distância entre a casa em Campo Grande, na Zona Oeste, e a Uerj, no Maracanã, onde estuda, foi um dos motivos que fez Renata desistir de uma oferta de emprego na Barra da Tijuca. Só para chegar à universidade, gasta duas horas de ônibus. A mesma limitação ocorre na hora de buscar emprego. — Preferi me dedicar só ao mestrado. Até porque o salário era pouco e não tinha para onde crescer. O problema foi que a bolsa (do mestrado) não saiu, mas de qualquer forma seria inviável trabalhar — conta. Apesar de ainda deixar de fora do mercado mais de meio milhão de trabalhadores, este contingente vem diminuindo ano após ano. Reflexo da melhora no mercado de trabalho em geral, que mostra declínio sucessivo da taxa de desemprego. Em fevereiro de 2009, o grupo contava quase um milhão de pessoas. A taxa de desemprego na época era de 8,5%. Para o economista especialista em mercado de trabalho Claudio Dedecca, da Unicamp, a incorporação desse grupo depende de políticas públicas, como a ampliação da oferta de creches, e não resolve por si só o problema da baixa produtividade. — São pessoas que só vão trabalhar se as condições de trabalho forem compatíveis e cobrirem os custos que teriam. Mas como incorporar essas pessoas quando estamos desprovidos de políticas de qualificação? — indaga. Clarice Spitz Breno Salvador
Fonte: O GLOBO


Comentários da notícia