Capacitação pedagógica e dimensão axiológica no Ensino Superior

26/03/2014 - Por Filipe Zau* Parte de uma indispensável argumentação académica que contribua para um melhor entendimento sobre a necessidade de se incluir a capacitação pedagógica em futura selecção e recrutamento de docentes para o ensino superior. Bem como para a formação dos que já se encontram em exercício de funções, está publicada num artigo da autoria de Elaine Vieira, publicado na revista científica do Instituto Tocantinense Presidente Antônio Carlos. O livro “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa”, editado em 1996, é sem dúvida alguma um clássico de leitura obrigatória para quem abraça o exercício de magistério. Especificamente, sobre a metodologia do ensino superior há várias outras obras publicadas, também em língua portuguesa, das quais Elaine Vieira destaca as seguintes: “Didática para o ensino superior”, da autoria de Arilda Schmitdt Godoy, publicado, em 1998, em São Paulo, pela editora Iglu; “Pedagogia e pedagogos, para quê?”, da autoria de José Carlos Libâneo, editado em 1998, em São Paulo, pela editora Cortez; “Docência no ensino superior”, da co-autoria Selma Garrido Pimenta e Lea das Graças C. Anastasiou, editado em 2002, em São Paulo, também pela Cortez; “A prática reflexiva no ofício de professor: profissionalização e razão pedagógica”, de Philippe Perrenoud, lançado em 2002, em Porto Alegre, pela Artmed Editora; “Metodologia do ensino superior”, da autoria de António Carlos Gil, publicado em 2005, em São Paulo, pela editora Atlas. Associada a esta lista de títulos académico-pedagógicos, considero recomendável a leitura do livro “Dez novas competências para ensinar”, também da autoria de Phillipe Perrenoud, publicado, em Porto Alegre, em 2000, pela Artes Médicas Sul. Por mais que se procure escamotear o que é evidente no perfil de saída de grande parte dos estudantes formados nas nossas instituições públicas e privadas do ensino superior, a qualidade de ensino, para além de um adequado conhecimento nas áreas específicas de formação, necessita de ser fomentada por um conjunto de procedimentos metodológicos que contribuam para melhor e adequada: organização dos planos de estudo, definição dos objectivos de instrução e educação em diferentes áreas dos “currícula”, elaboração e selecção dos conteúdos programáticos, escolha de métodos e meios de ensino como recursos à facilitação da aprendizagem, diálogo pedagógico mais eficiente entre professor e estudantes em sala de aula, coerente avaliação para, através dos resultados constatados, se tornar possível a retroalimentação do microssistema de ensino e concorrer-se para o sucesso dos estudantes e não o contrário. Segundo Philippe Perrenoud, as instituições universitárias são fascinadas pelos saberes, o que é normal, pois a sua vocação fundamental é a de enriquecê-los e transmiti-los. Por esta razão, a formação de professores tem de ser também uma responsabilidade das universidades ou dos institutos de ensino superior. António Carlos Gil confere que a preparação do professor universitário ainda é bastante precária e que “a maioria dos professores brasileiros que leccionam em estabelecimentos de ensino superior não passou por qualquer processo sistemático de formação pedagógica. Porém, esse cenário vem aos poucos sendo mudado, já que há estabelecimentos isolados de ensino superior oferecendo cada vez mais cursos de Metodologia do Ensino Superior em nível de especialização”. Selma Garrido Pimenta, por seu turno, refere que é preciso considerar que a actividade profissional de todo docente possui uma natureza pedagógica, ou seja, vincula-se a objectivos educativos de formação humana e a processos metodológicos e organizacionais de construção e apropriação de saberes e modos de actuação. Por isso, para ensinar o professor necessita de conhecimentos e práticas que ultrapassem o campo da sua especialidade.Tal não ocorre, a maior parte das vezes, no ensino superior, porque os docentes não estão capacitados na “arte e na ciência do ensino”, ou melhor, na Didáctica. Paulo Freire, para concluir, afirma que na formação permanente dos professores o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. Os docentes do ensino superior precisam de compreender a dimensão do seu campo de actuação, não olhando somente para a profissionalização dos estudantes. Têm de ter também a preocupação de ultrapassar esse campo de visão profissionalizante no sentido de formar, complementarmente, cidadãos críticos e conscientes. Esta vertente só é conseguida desde que a dimensão ético-profissional do professor seja exemplar, do ponto de vista axiológico, o que também nem sempre acontece. * Letrista e compositor musical
Fonte: Jornal de Angola


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