Boas notícias sobre o ensino profissional

25/03/2014 - O drama da educação no Brasil é bastante conhecido. A má qualidade do ensino constitui um dos mais sérios entraves do crescimento do país e do progresso das pessoas. Os resultados das avaliações indicam que a maioria dos nossos jovens não tem condições de acompanhar o rápido avanço das novas tecnologias e dos processos produtivos. Nos últimos tempos, temos lido bastante sobre as tecnologias do futuro. Ficamos cada vez mais preocupados com a defasagem entre a baixa qualidade do ensino e o progresso da ciência aplicada. Nos países avançados, os novos robôs revolucionam os modos de produzir e vender; os incríveis drones se preparam para fazer entregas de mercadorias sem tripulantes; os computadores já pensam e muitos corrigem os próprios erros; na construção civil, a mecanização e a automação são usadas em larga escala: paredes e colunas trazem embutidos redes de eletricidade e de hidráulica assim como vários equipamentos elétricos e eletrônicos, indispensáveis na vida moderna; aparelhos sanitários e outros serão impressos nas próprias obras em três dimensões. Na abricultura, fala-se seriamente em fazendas verticais, nas quais legumes e hortaliças serão cultivados de modo intensivo em prédios próximos das cidades, economizando terra, transporte e mão de obra. Os engenheiros, em parceria com os neurocientistas, estão inventando a transmissão de imagens diretamente ao cérebro, sem passar pela vista, acelerando a captação de conhecimentos. As máquinas de tradução e interpretação simultânea e as que decifram manuscritos já estão no mercado. É o mundo que os jovens de hoje terão de dominar amanhã ou hoje mesmo. Para vencer os desafios, educação de boa qualidade será essencial, em especial a dos níveis fundamental e médio. Mas, é claro, a educação profissional terá um papel estratégico porque é nela que se formam os técnicos e tecnólogos. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) foi lançado em boa hora e já começa a apresentar bons resultados. Mais de 5 milhões de estudantes foram matriculados em cursos profissionais nos últimos anos. Além disso, é animador saber que tais cursos vêm sendo bem recebidos pela população brasileira, que, secularmente, resistiu à ideia dos trabalhos que envolvem as mãos. Os tempos mudaram. Os brasileiros parecem ter entendido que, no mundo moderno, os técnicos terão um perfil dominado pelos conhecimentos teóricos, além de habilidades manuais. São novas profissões e novos horizontes para seus ocupantes. O nosso entusiasmo ao escrever este artigo decorre de dados recentemente publicados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e coletados em uma amostra nacional de 2.002 pessoas de 16 anos e mais que foram entrevistadas em todos os estados do país. A pesquisa procurou saber o que a população pensa do ensino profissional. As respostas são animadoras. Noventa por cento pensam que quem faz um curso profissional tem mais oportunidades no mercado de trabalho; 82% acham que os formados por tais escolas têm salários mais altos. Cerca de três quartos dos brasileiros consideram que o aluno que conclui um curso profissional está bem preparado para o trabalho (“Retratos da sociedade brasileira: educação profissional”, Brasília: CNI, 2014). Dados como esses indicam que a cultura bacharelesca que dominou nossa tradição educacional durante séculos, começa a mudar. E não é para menos. Os que passam pelas escolas profissionais conseguem emprego com mais facilidade, sofrem menos rotatividade, raramente ficam desempregados e sobem mais depressa na carreira. A mesma pesquisa indica que 61% dos que frequentaram escolas profissionais atuam ou já atuaram na área em que se formaram. Ou seja, eles controem sua vida com base no que apreenderam. A maior aceitação dos cursos profissionais vem sendo registrada também em outros países. Um estudo concluído baseado em uma amostra de todos os países da Europa mostrou que 71% dos entrevistados têm uma imagem positiva do ensino profissional; 82% acham que esse ensino fornece os conhecimentos que são demandados pelo mercado de trabalho; 75% consideram que os cursos profissionais são de boa qualidade (“Attitudes towards vocational education and training”, Eurobarometer, Report 369, 2011). A boa receptividade dos cursos profissionais entre nós é uma notícia promissora. Da aceitação, a população passará às maiores exigências. A pressão de baixo para cima é fundamental para forçar as escolas e todo o sistema educacional a melhorar a qualidade de ensino. Aliás, a pesquisa da CNI revelou um dado notável: cerca de 70% dos entrevistas consideram os cursos profissionais como ótimo e bom, devido à boa qualidade dos professores. É impressionante como a população tem uma ideia precisa do que é importante para o futuro dos filhos. Oxalá essa visão oriente a pressão que se faz necessária para se melhorar o sistema de ensino como um todo, em especial o fundamental e médio. JOSÉ EDUARDO G. PASTORE Advogado, mestre em direitos sociais, professor da Universidade de São Paulo, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio-SP e membro da Academia Paulista de Letras
Fonte: Correio Braziliense / DF


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