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Cadê as bibliotecas?


29/09/2008 - A leitura é pré-requisito básico para a formação de um cidadão. Para compreender a própria língua, as imagens, os códigos, os gráficos, um aluno precisa aprender a ler. Só assim ele será capaz de aprender os conteúdos transmitidos em sala de aula e conseguirá bons conceitos em avaliações nacionais e internacionais. O desafio para formar leitores, imposto às escolas e educadores, é enorme. E o pior: as condições para superá-lo não são as melhores.

Apesar de o Ministério da Educação e os governos locais já investirem na aquisição de livros para as escolas públicas, ainda faltam espaços para promover a leitura. As bibliotecas não são realidade em todos os colégios. Aliás, existem a proporção de bibliotecas escolares no país é pequena. De acordo com a Secretaria de Educação Básica do MEC, existem 10.822 bibliotecas nas escolas públicas de ensino médio do Brasil. Isso representa 63,4% do total de estabelecimentos de ensino nessa etapa. No ensino fundamental, há 30.506 bibliotecas, localizadas em apenas 22,3% das escolas.

No Distrito Federal, os números do último Censo Escolar, de 2006, assustam ainda mais. Do total de 620 escolas que compõem a rede pública (considerando todas as etapas da educação básica), apenas 75 possuem bibliotecas ou salas de leitura. No caso do ensino médio, que possui 77 colégios, apenas nove aparecem na lista das que possuem o espaço. Gilmar Vilela da Silva, gerente de multimídia da Secretaria de Educação do DF, responsável pelas bibliotecas escolares, admite que a realidade está longe do desejável. “É uma preocupação. Todas as escolas precisam de bibliotecas. Falta pessoal e espaço”, diz.

Não existe concurso para bibliotecários na rede pública. Professores que precisam deixar a sala de aula acabam exercendo o papel desses profissionais. Mas ainda assim a quantidade é insuficiente. Além disso, como a sala de aula é prioridade para a Secretaria de Educação, muitos desses educadores foram retirados das bibliotecas que cuidavam para suprir carências de professores nas escolas. O resultado é que há espaços destinados aos livros trancados e acumulando poeira em vários colégios.

Norma Lúcia Queiroz, professora do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, diz que as bibliotecas são espaços indispensáveis para a formação dos alunos. “Ninguém se torna leitor se não tiver lugar onde escolher obras e perceber que o ambiente é seu”, ressalta. Ela destaca que o professor que está em sala de aula precisa ser envolvido nas atividades de promoção da leitura para que o processo seja eficiente.

As ações
Gilmar destaca que os acervos das escolas estão sendo formados a partir de programas do MEC, como o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que envia títulos de literatura e obras de referência aos colégios, e o Ler é legal, da própria secretaria, que dá créditos às escolas para que os alunos comprem as obras de seu interesse durante a Feira do Livro de Brasília. Há também outros dois projetos em andamento para fortalecer a leitura: a Caixa-estante (minibiblioteca que circula pelas salas de aula) e Leitura de jornais (que distribui jornais às escolas).

O PNBE foi criado em 1997 com o intuito de ajudar as escolas do país a formar acervos literários e de livros paradidáticos, que incentivassem a formação de leitores. Ao longo desses anos, a Secretaria de Educação Básica do MEC percebeu que só a distribuição de livros não resolve o problema. “É preciso formar o professor para a importância da leitura e do uso da biblioteca, e sensibilizar os gestores para a necessidade de dar aos jovens acesso a esses bens culturais”, destaca Jane Cristina Silva, coordenadora geral de Materiais Didáticos.

O ensino médio foi incluído no PNBE este ano e todas as escolas receberam 139 títulos diferentes (de acordo com o tamanho, os colégios receberam até três exemplares de cada). No ano que vem, serão mais 300. O ministério estuda agora formas de tornar a biblioteca parte da realidade de todos os colégios. “A leitura não pode ser um momento estanque na vida do aluno. Tem de estar integrada ao cotidiano da escola, como uma das bases do projeto pedagógico”, ressalta Jane.

Dias Gomes agradece
Gustavo Moreno/Esp. CB/D.A Press Estudantes do CED 4 do Guará ganharam novo acervo de presente

Leitura para Todos. Esse é o lema de um projeto do Instituto Oldemburg de Desenvolvimento, criado no Rio de Janeiro em 2003. A proposta é formar parcerias com empresas privadas para distribuir acervos para salas de leitura em escolas e comunidades carentes. Em quase cinco anos de trabalho, 572 salas foram montadas. Na última semana, 12 instituições de Brasília receberam um acervo com 1 mil livros do projeto. Aqui, a parceria foi feita com a Brasal e o Grupo Record.

O Centro Educacional 4 do Guará foi uma das escolas contempladas. A biblioteca do colégio, batizada com o nome de Dias Gomes, funciona nos três turnos. As profissionais que cuidam do espaço se esforçam para manter o local organizado, limpo e cheio de alunos. A diretora, Janaína de Melo Nogueira Guimarães, conta que o acervo de 10 mil livros é bastante utilizado pelos estudantes, mas lamenta a falta de espaço físico para acomodar as obras.

“A biblioteca é um suporte importantíssimo para a formação de leitores. É pelos livros que eles têm condições de viajar e imaginar”, destaca Janaína. Osório Neto, diretor da Brasil, diz que pretende continuar apoiando o projeto, para que mais escolas recebam o acervo, que conta com obras nacionais e estrangeiras, atuais e clássicas. “Essas obras são sementes importantes para o processo de formação desses jovens”, ressalta Cristina Oldemburg, presidente do instituto.

Bruna Carolina de Oliveira, 14, Leonardo Santos, 14, Sheila Silva, 15, Wkisley Soares, 15, Vanessa Caetano, 16, Edicleiton da Cruz, 15, e Everson de Sousa, 16, comemoraram a chegada do acervo. Os estudantes enumeram a importância da biblioteca para eles: oferece os livros exigidos em processos seletivos, informações para pesquisas, local de estudo, espaço para o lazer. Por isso, valorizam o espaço. “É o local ideal para que a gente estude e encontre informação”, define Leonardo. “Podemos conhecer coisas que nunca imaginamos por meio dos livros”, ressalta Bruna.

Depósito de livros?
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

No Centro Educacional 7 de Ceilândia, há uma sala de leitura com 600 títulos e uma biblioteca com outros 5,5 mil livros literários, didáticos e paradidáticos. O que poderia ser considerado um privilégio, na verdade, está prestes a ser totalmente inutilizado. A professora que cuida da biblioteca há dois anos foi solicitada pela Secretaria de Educação para assumir outro posto, em sala de aula, fora da escola. O funcionário que tomava conta do espaço também foi requisitado.

O resultado é que a sala de leitura fica fechada e a biblioteca, que funcionava apenas de manhã e à noite, pode ter de parar de funcionar também. Firmino Neto, diretor do colégio, não se conforma. “Nosso projeto pedagógico tinha a leitura como prioridade. Como podemos oferecer isso com a sala de leitura e a biblioteca fechadas?”, indaga.

Simone Riela, a professora que foi mandada para o CED 7 há dois anos para cuidar da biblioteca, mesmo sem formação adequada para isso, se esforça para catalogar o material e ajudar os estudantes. “Entendo que o espaço não pode ser um depósito de livros. O conhecimento não pode ficar trancado e os alunos ainda precisam de auxílio para fazer as pesquisas e conhecer as obras que estão ali”, pondera.

Lenon Mota, 17, Heiane da Silva, 17, Maiara Araújo, 18, Fábio da Silva, 19, Rafael Siqueira, 20, Priscila Anne de Andrade, 17, e Laís dos Santos, 18, garantem que o espaço faz falta. “Se a gente quiser consultar um dicionário não tem jeito. Biblioteca tem que ficar aberta o tempo todo”, protesta Rafael. Maiara conta que não pode comprar os livros exigidos pelos professores. “Tento pegar as obras com os amigos. Às vezes, não dá e fico sem ler. Não posso pagar por eles. A biblioteca faz muita falta”, lamenta.

Priscila lembra que, nesses espaços, os estudantes têm a chance de expandir os conhecimentos recebidos em sala de aula. “Se o governo quer cobrar resultados da gente, precisa mudar essa realidade. As informações não podem ficar trancadas aqui”, aponta Lenon.

Poeira e mofo
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press Ananda e Gilberto reclamam porque precisam dos livros para a prova do PAS

Desde o ano passado, os estudantes do Centro de Ensino Médio 4 de Ceilândia não podem mais freqüentar a biblioteca da escola. O lugar, que antes vivia lotado, acumulou poeira nas obras e nas mesas durante mais de um ano. Os educadores que cuidavam do espaço foram solicitados pela Secretaria de Educação. Sem ninguém para tomar conta, os livros ficaram trancados. Depois de muitos protestos feitos pela direção do colégio à Diretoria Regional de Ensino, um professor readaptado (que teve problemas de saúde e ficou afastado por muito tempo da sala de aula) foi enviado para cuidar do local.

Há dois meses, ele tenta organizar os livros e limpar o espaço para voltar a receber os alunos. Sozinho no serviço, e sem a formação adequada para isso, Robson Santana Rufino, que é professor de biologia, ainda não conseguiu terminar. “ Vou tentar fazer um bom trabalho, mas não fui formado para isso”, admite. Nilson Couto Magalhães, diretor do CEM 4, diz que a cobrança dos alunos é enorme. “O acervo está aqui parado, mofando. Esse é um espaço muito importante para professores e alunos”, conclui Nilson.

Ananda Silva, 18, e Gilberto Júnior, 18, alunos do 3º ano, acreditam que falta interesse dos governantes para investir nas bibliotecas. Eles defendem mais investimentos no acervo e na contratação de pessoal para os espaços. “A gente não tem mais espaço para fazer pesquisas e trabalhos em grupo”, observa Gilberto. Para Ananda, outro grande prejuízo é não poder fazer empréstimos. “Os livros do PAS são muito caros. Sem acesso a eles na escola, é difícil conseguir fazer as leituras”, enfatiza.


Fonte: Correio Braziliense / DF

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